APRESENTAÇÃO CINESESC

PROGRAMAÇÃO LONGAS
Paulo Emílio não era cinéfilo, nem mesmo se considerava crítico de cinema. Seu olhar não era de apaixonado, nem de especialista. A sua vida não se resumia ao cinema, como ocorre com os cinéfilos. Tampouco seu foco era o do técnico, senhor do jargão e pleno de certezas. O cinema para ele só interessava quando falava do mundo e a toda gente, elevado a valor cultural.

O seu comentário assistemático situava o filme no fenômeno cinematográfico, no período em que o cinema era a maior diversão de massa e assunto obrigatório nas conversas e rodas.

Nesse processo foi constituindo um panteão em que despontaram alguns dos cineastas hoje considerados clássicos. Stroheim e René Clair, Griffith e Renoir, Chaplin e Eisenstein, Dovjenko e Fellini, Resnais estão entre os contemplados nesta mostra eclética, que demonstra o caráter inclusivo do gosto de Paulo Emílio. Os textos que dedicou a esses cineastas, reunidos na antologia O cinema no século, estão entre os melhores que o cinema suscitou enquanto experiência cultural. Uma pequena amostra, que acompanha a ficha técnica de cada filme, visa sensibilizar o leitor ao estilo do escritor.

Paulo Emílio valorizava o diálogo, sobretudo com o adversário. Seu temperamento era expansivo e exigia retorno. Em 1960, quando se deu conta de que o diálogo com o filme estrangeiro era impossível e estéril, voltou-se ao cinema brasileiro, que aprendeu a amar intransigentemente, e se tornou tema exclusivo de sua reflexão.

Com um humor todo seu, Paulo Emílio conquistou um profundo amor ao “bom” e ao “mau” cinema nacional e, com a sua crítica, sugeria que a verdadeira compreensão do filme brasileiro só se vislumbraria na experiência cultural que o produz. Submetidas à força do mercado e ao preconceito elitista, obras que o olhar despreparado descarta e despreza ganharam uma dignidade que lhes restituiu sua dimensão de espelho cruel das mazelas de nosso subdesenvolvimento.

Entre os filmes brasileiros programados há obras-primas como Ganga bruta, de Humberto Mauro, cuja restauração Paulo Emílio dirigiu pessoalmente com o apoio de seus alunos, e Vidas secas, de Nelson Pereira, em que ele reconhecia um “esplêndido amadurecimento”. O grande momento, de Roberto Santos, parecia-lhe o renascimento do cinema paulista após a derrocada da Vera Cruz. Em Porto das Caixas, Paulo Emílio admirava a sobriedade narrativa e o surgimento de uma grande estrela, Irma Álvarez. Bang bang, de Andrea Tonacci, trazia ao cinema brasileiro a gratuidade narrativa, sob a influência libertadora de Godard, o guru daquela geração.

Os filmes programados foram escolhidos dentro de um repertório limitado de opções, em função de cópias disponíveis e de qualidade, numa época em que tudo está à mão, nem sempre em condições, ao alcance de um clique na tela pequena. Na tela grande do CineSesc, o prazer renovado do cinema estará garantido às novas gerações.

Carlos Augusto Calil


PROGRAMAÇÃO COMPLEMENTOS
A mostra de complementos nacionais em 100 Paulo Emílio oferecerá um enfoque mais elementar das ideias do seu homenageado. Retomando a antiga programação das salas de cinema do século passado, serão exibidos filmes que trazem interessantes temas para se pensar questões da multifacetada nação brasileira. Os programas oferecidos são compostos por cinejornais (trechos ou edições completas) e curtas-metragens, equilibrando a diversidade destas produções e mantendo o diálogo com algumas reflexões de Paulo Emílio.

Filmes como Cantos de trabalho (1955) e A velha a fiar (1964), obras-primas de Humberto Mauro (1897-1983) para o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), traduzem a “expressão social” do nosso folclore e de temas populares da nossa cultura. Expressão social também presente em Trabalho no campo (1963) e Cerâmica Horizontina (anos 1920), em que o contrato social exibido é bastante ilustrativo dos altos e baixos de nossa história recente; e em Paulo Emílio S. Gomes – Ganga Bruta (1976), onde o próprio Paulo Emílio é quem nos fala sobre o cinema brasileiro.

Quanto aos cinejornais, algumas séries demonstram o “ritual do poder” das elites políticas e econômicas, em sua estratégia para impor visibilidade e modo de vida perante o todo social. Da mesma forma, a exaltação ao “berço esplêndido” (nossas belezas naturais e culturais), também serviu às narrativas laudatórias ao poder, como em A mais linda cidade do mundo (1957) de Jean Manzon (1915-1990) – cineasta cuja qualidade técnica das narrativas ufanistas lhe rendeu o controverso reconhecimento de “pior cineasta do mundo” por parte de Paulo Emílio. A “situação colonial” do Brasil também não foi esquecida: na inauguração de Brasília, um dos principais cinejornais do país optou por elidir o elemento popular e oferecer destaque ao lobista Harry Stone, o “embaixador de Hollywood”.

Amplamente difundidos no espetáculo cinematográfico brasileiro do século XX, a importância desses filmes foi bem observada por Paulo Emílio, que os traduziu em reflexões sobre questões políticas, históricas e socioculturais. Logo, a importância dada à preservação e à difusão dos complementos nacionais é exemplar deste pensamento pauloemiliano, que bem compreendeu a relevância dos diferentes estilos e formatos de filmes nacionais, até dos mais precários, para a melhor compreensão de nós mesmos.