APRESENTAÇÃO CINUSP

Não é incomum o surgimento de figuras que se cristalizam, como representantes significativos de obras, projetos, movimentos. As gerações seguintes, influenciadas por tais figuras, tratam de promover esforços para passar adiante seu legado, por intermédio das mais variadas iniciativas, chegando a batizar instituições, espaços e eventos em sua homenagem. Este é o caso de Paulo Emílio Sales Gomes, crítico de cinema, professor universitário e escritor, que nomeia, entre outros espaços, o CINUSP. Não há fórmula, porém, que garanta que uma figura ou ideia possa se manter atual. A distância imposta pelo tempo transfigura agentes de um meio em ilustres desconhecidos. Fica a questão: O que teria a nos dizer hoje alguém que completaria 100 anos? Tendo em mente essa questão, a equipe do CINUSP, junto à Cinemateca Brasileira, decidiu tomar com as próprias mãos a obra de Paulo Emílio, falecido em 9 de setembro de 1977, para destrinchar a relevância do próprio nome, e hoje convida seu público a participar dessa jornada, e conhecer mais do que um mito: ideias sobre como olhar para o cinema.

Dessa tarefa nasceu o Projeto 100 Paulo Emílio. No CINUSP, realizaremos a Mostra 100 Paulo Emílio, composta de filmes que foram considerados relevantes pelo autor. Desde seus estudos a respeito do cinema soviético, escrevendo sobre Encouraçado Potemkin, ou do cinema italiano abordando Federico Fellini e Vittorio De Sica. Teve no entanto, sem dúvida, maior enfoque no cinema nacional e no diagnóstico de sua condição material e estética, discorrendo sobre filmes como O Cangaceiro, Carnaval Atlântida, O Pagador de Promessas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Bang Bang. Foram seus comentários, suas análises e suas reflexões que orientaram a curadoria e escolha dos filmes que compõe essa mostra. As sessões, palestras e debates suscitarão questões caras ao cinema levantadas por Paulo Emílio ao longo de sua trajetória, assim como a respeito da própria figura, sua vida e obra.

Seguindo a própria tradição de análise do crítico, podemos tomar sua biografia como caminho de compreensão de sua obra. Desde muito jovem Paulo Emílio se envolveu com a militância política. Participou da Juventude Comunista, chegando a ser preso em 1935 após a histórica intentona malsucedida. Sua afiliação ao Partido Comunista, entretanto, não perdurou, tendo seu afastamento da linha política estalinista do Partido ligação com a divulgação dos processos de Moscou no período do pós-guerra, quando estava exilado na França. Apesar disso, a característica de militante permanece explícita em seu trabalho, quase como um traço de personalidade. Paulo Emílio tratava a atividade cultural como um ato político, e vislumbrava no cinema brasileiro um campo de interesse para compreensão da própria condição do país. Um passo fundamental em sua cruzada pela valorização do cinema nacional foi a proposição de uma historiografia, de maneira a enxergar a construção de uma história já em curso, e propor linhas de ação. Tornou-se lastro dessa historiografia o cineasta mineiro Humberto Mauro, destacado por Paulo Emílio por ter construído “a primeira carreira contínua, coerente e bela que o cinema do Brasil conheceu”, expressando o interesse pela produção local, bem como a importância da manutenção da atividade.

Sua maior empreitada no sentido de preservar a história do nosso cinema foi a fundação da Cinemateca Brasileira. Como dizia, “o futuro depende de qual passado recuperamos no presente”. Paulo Emílio morreu acreditando que fracassou nessa missão. Felizmente, a Cinemateca Brasileira continua o seu trabalho.

Para Paulo Emílio, a Cinemateca não apenas está envolvida com as questões cinematográficas, mas é uma verdadeira escola de cinema. ”A Cinemateca, na medida em que recolhe e guarda, ou tenta guardar, o maior número possível de filmes brasileiros e estrangeiros, desde o seu início até hoje, é uma escola para o cineasta”. Não à toa, Paulo Emílio também está envolvido na criação dos cursos de cinema da Universidade de Brasília (UNB) e da Universidade de São Paulo (USP).

Outra grande preocupação de Paulo Emílio era em relação ao mercado cinematográfico brasileiro e a defesa da produção e exibição do cinema nacional. “O problema não é aumentar o número de filmes a serem apresentados no exterior, mas sim diminuir o número de fitas estrangeiras aqui exibidas”, o que deveria importar para o filme brasileiro era o público e o mercado nacional.

Não se deve, porém, julgar Paulo Emílio por um nacionalista ingênuo. Impulsionar o cinema brasileiro tratava-se, antes de tudo, de compreender deficiências inerentes à nossa condição e formação nacional. Dedicou-se a uma análise objetiva das condições materiais que determinavam (e determinam) a trajetória do cinema nacional. Dizia em um de seus ensaios de maior fôlego, Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento: “Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa sensação de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro. O filme brasileiro participa do mecanismo e o altera através de nossa incompetência criativa em copiar. O fenômeno cinematográfico no Brasil testemunha e delineia muita vicissitude nacional”.

Sua curiosidade pelo que há de único na produção nacional acabou por lançá-lo em território até então ignorado pela crítica, mas frequentemente prestigiado pelo público. Paulo Emílio escreveu sobre o cinema caipira de Amacio Mazzaropi, curioso por sua personalidade, sobre as chanchadas das companhias Atlântida e Vera Cruz, produzidas nas décadas de 40 e 50, e sobre as pornochanchadas da década de 70. Declarou em entrevista concedida a Carlos Reichenbach, Eder Mazini e Inácio Araújo: “A gente encontra tanto de nós num mau filme que pode ser revelador em tanta coisa da nossa problemática, da nossa cultura, do nosso subdesenvolvimento, da nossa boçalidade inseparável da nossa humanidade, que em última análise é muito mais estimulante para o espírito e para a cultura cuidar dessas coisas ruins do que ficar consumindo no maior conforto intelectual e na maior satisfação estética os produtos estrangeiros”.

Isso posto, vale ressaltar que tamanha lucidez na defesa do cinema brasileiro não é inata, mas resultado de longo amadurecimento intelectual, ou como o próprio Paulo Emílio chamava, descolonização. Este debate, do qual Paulo Emílio tratou com tanta eloquência, foi muito presente em sua geração, e inspirou também a geração do Cinema Novo, ávido por fazer do próprio subdesenvolvimento uma marca estética. É importante ressaltar que, apesar do Cinema Novo reivindicar o Paulo Emílio, o próprio sempre manteve uma certa distância, mais preocupado com outras questões. “Glauber às vezes me cita e quase sempre o que me atribui não tem nada a ver comigo: passagens entre aspas não foram escritas nem faladas por mim, ideias brilhantes que, diferentemente do que ele pensa, não são minhas infelizmente.”

Paulo Emílio dissertou sobre o mercado, a economia, a estética, a política, a memória e preservação, e, de maneira geral, a importância do cinema. Criou entre esses elementos vínculos que permitem um olhar totalizante a respeito de nosso cinema. Como herança, deixou desenhado um complexo panorama do qual saltam as marcas singulares do cinema nacional, suas aflições e riquezas.

A mostra do CINUSP e todas as demais atividades do Projeto 100 Paulo Emílio, são um esforço de trazer ao público a oportunidade de conhecer e reconhecer o ilustre desconhecido Paulo Emílio. Talvez dessa maneira, ao encarar de frente sua obra e o cinema sobre o qual escreveu, se possa atingir o que o autor chamou de “uma alegria de entendimento” de nosso cinema nacional e de nossa cultura, compreendendo o citado panorama e buscando expandir o seu desenho e abarcar nossa atual realidade.

Ayume Oliveira
Maurício Battistuci
Nayara Xavier
Thiago Oliveira