Trajetórias


No centenário de Paulo Emílio Sales Gomes celebramos a vida e a obra, o mito e o homem, reconstituído a partir de testemunhos daqueles que conheceram suas brigas, seus amores, amarguras, tristezas e prazeres do menino travesso, ou do professor de cinema perseguido pela ditadura militar. Os alunos falam do mestre; os amigos da generosidade e bom humor; a polícia, do comunista perigoso e incorrigível; e o próprio Paulo Emílio, de seu empenho em superar os obstáculos do mais cruel subdesenvolvimento. Os fragmentos revelam a irreverência de seu pensamento e o brilho de sua originalidade, essência deste “homem solar” que foi prisioneiro do governo Getúlio Vargas, amante de cinema, defensor do patrimônio cultural, ou ainda humanista capaz de convencer colaboradores para lutar, ao seu lado, pela emancipação do homem por meio da cultura.


A JUVENTUDE
“Paulo Emílio desde menino era muito alegrinho, muito bem disposto, tinha uma porção de esquisitices. (...) ele não saia da casa do avô sem levar alguma coisa da casa. Levava alguma fruta, um doce, um pedaço de bolo, e quando não tinha nada, ele levava um ovo, para levar, para dizer que levou. Sempre muito alegre, eu nunca o vi aborrecido, nervoso, sempre muito bem humorado. (...) Dona Gilda (...) achou que o Paulo Emílio tinha qualquer complicação no intestino, e chamou um farmacêutico, que receitou uma dosagem de quenopódio (...). O Paulo Emílio tomou. Dormiu dois dias seguidos, sem acordar. Quando acordou, acordou vesgo”. Júlia Etti Salles Gomes em entrevista a José Inácio de Melo e Souza.

“Minha formação foi estrangeira e histórica. Cinema foi a última coisa que me interessou. Tive interesse por literatura, artes plásticas, sociologia e filosofia, e até medicina me interessou. Era adulto e nunca fora fã de cinema. Mocinho passivo, em minha época era mais coisa social; coisa de moço, para ir com a namorada e os amigos. Há um documento importante: em 1935 fundei com Décio de Almeida Prado a revista Movimento, que tratava de tudo, menos de cinema”. Instituições de cinema. Entrevista concedida a Gisele Gubernikoff.

“Os cinco anos de ginásio consolidaram entre nós uma amizade que se exprimia através de infindáveis e acaloradas discussões a propósito de nada (uma vez, sobre sangue arterial e sangue venoso, berramos horas), da publicação de jornaizinhos estudantis que nunca passavam do primeiro número e de um suposto estudo comum, por ocasião dos exames, que logo degenerava em conversa vadia ou em demoradas análises de nossos antigos professores e colegas (exercício de volta ao passado que cultivamos juntos com afinco enquanto ele foi vivo). (...) Mais fortes do que as acentuadas diferenças de temperamento, duas coisas nos aproximavam: a mania literária e o fácil riso da adolescência, de que possuíamos reservas inesgotáveis. Paulo Emílio, então, podia tornar seus os versos de Manuel Bandeira em Libertinagem: ‘Uns tomam éter, outros, cocaína. Eu tomo alegria!’”. Paulo Emílio quando jovem, de Décio de Almeida Prado.

GUINADA À ESQUERDA
“De repente, despontou nele uma nova paixão: a política de esquerda. No início - ele me diria mais tarde - a adesão ao comunismo, embora entusiasta, de corpo e alma, não foi mais que a vontade de submeter a uma disciplina severa o que ele sentia em si mesmo com uma tendência natural à dispersão. (...) Mas logo o marxismo transformou-se para ele no foco a partir do qual todos os fatos, do passado como os do presente, os metafísicos como os sociais, os artísticos como os econômicos, se casavam numa visão total e coerente da realidade”. Paulo Emílio quando jovem, de Décio de Almeida Prado.

“Quando ele era jovem, (...) o Paulo Emílio, um dia, inventou de fazer comício comunista dentro da fábrica do avô, que tal? E acho que com muito sucesso, pois ele era muito espirituoso”. Júlia Etti Salles Gomes em entrevista a José Inácio de Melo e Souza.

“Comunista que se manifesta francamente. Agia nos sindicatos de ferroviários, onde exercia ativa propaganda. Ainda há pouco tempo fez intensas propagandas das suas ideias no Sindicato da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde discursou sobre o proletariado russo. Foi o iniciador e animador da campanha pró Genny Gleizer nos meios estudantinos por ocasião da expulsão desta comunista do território nacional. Em comícios sempre se manifestou em linguagem extremista e subversiva. Num comício realizado no Parque D. Pedro II, fez a apologia de Luiz Carlos Prestes, a quem chamou de ‘único homem (capaz) de salvar o Brasil’. Foi membro da Juventude Proletária Estudantil. Amigo muito íntimo do comunista Ozorio Cesar, com este mantinha correspondência continua quando aquele conhecido comunista esteve na Rússia. Foi de Ozorio Cesar que recebeu cartazes de propaganda comunista para fixar no sindicato Unitivo da Central do Brasil, onde realizou uma conferência”. Delegacia de Ordem Social, 07/02/1936.

“Tenho a impressão de que meus 18 anos duraram anos”. Paulo Emílio quando jovem, de Décio de Almeida Prado.

“Eu estava no curso fundamental da Escola Caetano de Campo quando vi Paulo Emílio pela primeira vez liderando um comício de estudantes na Praça da República. Fiquei impressionada, meu Deus! Tanta coragem daquele moço de olhar entortado e voz flamante, protestando contra a repressão política e contra a censura. Repetia muitas vezes a palavra resistir! Mais gente chegando. Subindo num banco e com voz apaixonada ele conclamou os ouvintes, tinham todos participado dessa frente democrática, o único caminho que se abria para o povo do Brasil. (...) Depois dessa manhã Paulo Emílio desapareceu completamente do meu horizonte. Mais tarde, de forma assim vaga fiquei sabendo que ele tinha sido preso”. Um Retrato, de Lygia Fagundes Telles.

PRISIONEIRO DO ESTADO NOVO
“Eu estava então no presídio do Paraíso. Naquele tempo as cadeias tinham nomes curiosos. Havia também o Presídio da Liberdade e um outro com a denominação gentil de Maria Zélia. Apesar de ter passado tanto tempo, esse nome ainda soa sinistramente no ouvido de algumas pessoas e no meu. (...) Mas como ia dizendo estávamos presos há mais de ano e não sei mais quem teve a ideia de cavarmos um buraco para fugir. O furo debaixo da terra acabou tendo mais de dez metros de comprimento e nele trabalhávamos a noite inteira com ferramentas improvisadas. Por cima de nós evoluía a guarda que nas horas, sempre imprevistas, de rendição, marchava em passo cadenciado”.Variação do enterrado vivo.

“O Cinema foi a última coisa que me interessou. Inicialmente, meu interesse era por literatura, política, depois artes plásticas, música. O cinema era mais por causa das namoradas, era secundário. A exceção eram os filmes de Chaplin. Em 1936, quando apareceu Tempos Modernos, eu estava preso, e muito curioso e muito frustrado por não poder ver o filme. Quando chegavam prisioneiros novos, eu perguntava se eles não tinham visto o filme. Quando o Aristides Lobo foi preso, e nos encontramos na cela obriguei-o a me contar, pois ele era o único que o tinha visto”. Entrevista concedida a Cláudio Kahns.

PERSPECTIVAS NO EXÍLIO
“Quando saí da prisão, fui à Europa, e antes da Guerra conheci o Plínio Sussekind Rocha, professor de Mecânica Celeste e Filosofia da Ciência. (...) Então fomos ver Outubro numa sala mundana nos Champs Elysées, cheia de mulheres, e este filme me impressionou muito. Saindo de lá, vi o enorme interesse de Plínio pelo cinema, particularmente pelo cinema mudo. Ele frequentava o Cercle du Cinéma, um cineclube, e esse interesse me levou a informar-me até que comecei a ter também uma curiosidade muito grande pelo cinema antigo. Plínio era uma espécie de mestre para mim, interessou-me por leituras e comecei a ver muitos filmes mudos. Eu gostava muito de René Clair porque ele era inimigo do sonoro. Comecei a ver outros filmes, e a ver com outros olhos Tempos Modernos. A Grande Ilusão, de Renoir, também me impressionou muito”. Entrevista concedida a Cláudio Kahns.

“Era o tempo do Front Populaire na França e da Guerra Civil Espanhola, e ele desenvolveu uma atitude bastante crítica em relação aos partidos comunistas, que atuavam segundo os estritos interesses soviéticos, não os do proletariado de seus países; e que não trepidavam em liquidar de qualquer maneira os outros grupos de esquerda. Com isso chegou a uma visão fortemente anti-stalinista, que não implicava todavia anticomunismo (...). Às leituras é preciso juntar influências pessoais, a exemplo da de Victor Serge, com quem conviveu, e sobretudo a do curioso Andrea Caffi, ítalo-russo que o fascinou, filho de um italiano e uma bailarina do Ballet Imperial de São Petersburgo. Caffi vivia na maior pobreza, amparado por admiradores fiéis, e exercia uma espécie de magistério socrático nas mesas dos cafés. Escrevia muito e não publicava nada, interessando-se apenas pela difusão entre iniciados. Fora bolchevista e amigo de Lenin, mas se desgostara e preconizava um socialismo democrático, revolucionário”. Informe Político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

O GRUPO CLIMA
“Com a Guerra, voltei ao Brasil, e conheci o grupo do Décio, que daí ficou sendo meu também. Tinha rompido com os stalinistas, e meus amigos comunistas se afastaram de mim. Este grupo era todo de pessoas da Filosofia: Antônio Cândido, Gilda de Mello e Souza, Lourival Gomes Machado, Cícero Cristiano”. Entrevista concedida a Cláudio Kahns.

“Creio que ouvi falar de Paulo Emílio pela primeira vez ali por 1938. Alguém me contou que era amalucado, comunista e havia toureado um bode na Cidade Universitária de Paris (o que ele confirmou mais tarde). O conhecimento pessoal data do fim de 1939, quando ele voltava de uma longa estadia na França. O intermediário foi Décio de Almeida Prado, que o apresentou ao grupo que fazíamos parte na sala de fundo da antiga Confeitaria Vienense, onde nos reuníamos. Embora tenha logo feito camaradagem com todos, ele era diferente de nós pela preocupação política e o passado militante. Nós éramos praticamente apolíticos, apesar da aversão ao Estado Novo e, nalguns, um vago sentimento socialista sem consequência. Isto o deixava irritado, e ele costumava dizer que era melhor ser de direita, mas pensar politicamente, do que ser alheado”. Informe político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

“Quando foi criada a revista Clima, em 1940, comecei a fazei proselitismo em torno do cinema, a escrever artigos. Estreei com um artigo sobre A longa Viagem de Volta, de John Ford, um filme sonoro, o que era uma contradição, pois eu vivia defendendo o cinema mudo. Neste mesmo tempo, conheci a casa Isnard, que vendia e alugava cópias de filmes mudos antigos (Metrópolis, Siegfried, etc.) que nunca eram alugados. Ninguém fazia nada com os filmes, só uns padres e mesmo assim só filmes cômicos, do Chaplin. Daí dei a ideia para o grupo, de montarmos um clube que ficou sendo o Clube de Cinema de São Paulo, a diretoria do clube era o Lourival, o Décio, Cícero e eu. Nas sessões, distribuíamos programas mimeografados, e a gente tinha muita documentação sobre os filmes, que eu tinha trazido da França, o que ajudava bastante”. Entrevista concedida a Cláudio Kahns.

I CLUBE DE CINEMA DE SÃO PAULO
“O Centro de tudo (Clube de Cinema de S. Paulo) era Paulo Emílio, com sua voz tonitruante, seu riso contagioso, sua atividade incansável e, qualidade rara no intelectual, a modéstia. Apresentava-se como discípulo de Plínio Sussekind Rocha, como continuador da tradição crítica do Chaplin Club. Estabeleceu elos entre São Paulo e Rio, e, como viajava muito por todo o Brasil, entre outras cidades. Voltava de Recife eufórico: ‘Descobri alguém que conhece a fundo King Vidor, que tem fotografias de todos os seus filmes exibidos no Brasil!’. E assim muitos outros. Mesmo em São Paulo, acabou por aglutinar em torno de si todos os que cultivavam o gosto pelo cinema em privado, como se fora o gosto pelo jazz”. Ouvir Paulo Emílio, de Ruy Coelho.

“Foi-me aliás, uma boa surpresa saber o crítico paulista iniciado em Cinema por Plínio Sussekind Rocha, o que quer dizer meio caminho andado. Este grande físico brasileiro, um dos fundadores do Chaplin Club, e que é também um dos homens mais inteligentes com que já tratei, conhece Cinema que não é brinquedo, e o conhece naquilo que ele tem de mais difícil e sutil – o seu sentido por assim dizer matemático de construção. O Sr. Paulo Emílio, sente-se, não que desmerecer de tão boa direção. Trabalha com afinco, com amor, sequioso de decifrar tudo o que há de fundamental e legítimo na grande arte da imagem”. Vinicius de Moraes fala sobre a revista Clima e Paulo Emílio.

O SOLDADO DA BORRACHA
“Em 1943 ele decidiu alistar-se na chamada Batalha da Borracha, coordenada por João Alberto para incrementar a produção desta matéria prima com vistas ao esforço de guerra. Largou tudo e se meteu na Amazônia, trabalhando no setor de encaminhamento dos trabalhadores nordestinos recrutados. Foram meses duros nos quais participou de lances dramáticos num meio hostil e inóspito, enfrentando dificuldades e perigos de todo o tipo. Por quê? Porque sendo o antifascismo tópico central no seu ideário, ele entendia que era preciso lutar, não apenas falar contra as Potências do Eixo”. Informe Político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

“Direi ao Plínio as coisas que vi e as coisas que vocês pretendem fazer, em busca de feras, de matas, e de caminhos novos para a riqueza nacional. Bandeirantes e intelectuais. Isso provará, aliás, que a inteligência não é incompatível com a aventura da ação, e que se pode ser cineasta e desbravador de rios ignotos. Se v. morrer por lá (o que não desejo para minha amizade, mas desejo para sua glória) direi mesmo isso num necrológio e dissertarei sobre o papel da cultura e do homem culto no angustioso vale amazônico, (...) que me lembra um espadachim romântico, amando a Cristo e a Lenin”. Carta de Thiers Martins Moreira, 1943.

PLATAFORMA DA NOVA GERAÇÃO
“Nós, que terminamos um curso de escola superior, temos consciência de que somos filhos privilegiados da nação brasileira. É isso que para nós significa sentimento nacional, e achamos difícil que fora daí, possa significar alguma coisa mais além de inconsciência ou demagogia. A visão contraditória do Brasil, como país rico e nação pobre, marca o rumo de nossa ação. É preciso que se torne cada vez mais insuportável para nós, seus filhos privilegiados, a situação degradante da nação brasileira”. Discurso como orador dos formandos de 1944, da Universidade de São Paulo.

“Estou, aliás, convencido de que por maiores que sejam as realizações que possam estar reservadas à minha geração no campo literário, artístico e científico, esse conjunto não pode deixar de aparecer como um detalhe, diante do destino político, militar e religioso de uma juventude chamada a participar do desaparecimento de um Brasil formal e do nascimento de uma nação”. Plataforma da nova geração.

AS LIÇÕES ESTRANGEIRAS
“Paulo Emílio costumava dizer que voltaria para a França logo que fosse possível. Acho que ninguém dava muito crédito, mas o fato é que embarcou no primeiro navio a levar passageiros para lá depois da guerra, em fevereiro de 1946. Nunca mais teria qualquer vínculo partidário e nós só o veríamos de novo oito anos depois, em 1954, quando veio de vez. Mas aí, inteiramente absorvido por atividades ligadas ao cinema. Acabara o militante de partido, embora nunca houvesse acabado o homem visceralmente político que sempre foi, capaz de politizar qualquer atividade”. Informe Político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

“O Paulo, quando eu o conheci em 1947, (...) já estava totalmente ferrado pelo cinema, indo diariamente à Cinemateca (Francesa) e assistindo a todas as sessões, e eu comecei a viver esta vida com ele, de estar indo na Cinemateca. Frequentemente depois de irmos à Cinemateca, íamos ao teatro, pois o Paulo gostava quase tanto de teatro quanto de cinema. (...) Chegava em casa depois de tudo isto e lia até às 7 da manhã. (...) Ele lia muito, tinha uma grande mania de comprar livros. (...) Durante este tempo, eu esqueci de dizer, ele mandava umas crônicas sobre cinema, críticas mais do que crônicas, para o Anhembi (...). Fomos, então, em alguns festivais de cinema. Paulo tinha ligações com o pessoal da Cinemateca, sobretudo o Langlois. Estivemos no Festival de Knockk-le-Zoute e conhecemos ligeiramente o De Sica, o Gerard Philippe. Não me lembro se o Bazin estava lá. Conhecemos mais o Bazin quando ficamos um mês convidados pelo pessoal do Festival de Veneza, justamente em 1952. Bazin e nós estávamos no mesmo hotel. Então, o Paulo Emílio ficou tendo... ele já tinha muita admiração pelo Cahiers du Cinéma e ficaram camaradas”. Sônia Borges Veloso em entrevista a José Inácio de Melo e Souza.

“Agora, compreendo que é principalmente a Bazin que devo a minha completa libertação da pesada herança das ideias estéticas sobre o cinema datadas do período mudo. A ele, mais que a qualquer outro, devo a estimulante aceitação da natureza ambígua do fenômeno cinematográfico. Sem Bazin, eu me pergunto quando e como o mito da especificidade e do cinema puro deixaria de ser um obstáculo para o meu espírito”. A Arte Impura, Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

“Passou por minhas mãos o manuscrito do mais belo livro de cinema que já li. Trata-se de um livro monumental sobre Jean Vigo, sua vida, sua obra. Em oitenta páginas datilografadas, o autor P.E. Sales Gomes reconstituiu, dia após dia, a filmagem de Zéro de conduite. Cem páginas são consagradas a L’Atalante. Como não ficar transtornado com o relato da morte de Vigo? Seria lamentável que essa obra não encontrasse editor, ainda mais visto que sempre há unanimidade a respeito do autor de L’Atalante. Estou convencido de que com a publicação desse livro - teria de ser uma publicação integral - não será mais possível escrever dez linhas sobre Jean Vigo sem fazer referência a ele”. François Truffaut, Cahiers du cinéma.

CINEMATECA E BRIGA
“Com os parceiros Francisco Luíz de Almeida Salles e Rudá de Andrade ele fundou a Cinemateca Brasileira, o museu vivo de cinema com um acervo das maiores obras do cinema nacional e estrangeiro. Lecionou na Escola de Comunicações e Artes, fundou escolas de cinema por todo o Brasil e colaborou em vários jornais, notadamente no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo… E livros, ah! os livros, com que alegria se preparava nas férias para escrever, cumprindo assim a vocação que era o ofício da sua paixão”. Um Retrato, de Lygia Fagundes Telles.

“A pergunta sobre minha entrada na Cinemateca dá ideia de que a Cinemateca existia antes de mim. E de que eu entrei nela. Você, pegando pessoas como o Almeida Salles, eu, Caio Scheiby, Rudá de Andrade: a Cinemateca é inseparável das nossas biografias”.Eu só gostava de cinema estrangeiro. Entrevista concedida a Carlos Reichenbach, Eder Mazini e Inácio Araújo.

“Meu caro Paulo Emílio: estávamos assistindo ao Festival Cavalcanti quando o Chicão (Vilela) veio com a história de que a Cinemateca Brasileira tinha pegado fogo e que os filmes programados não seriam passados por este motivo. E como me falaram que a notícia estava nos jornais e que havia mesmo uma entrevista sua, fui a Panair para ver se me informavam diretamente. Aí é que vi que eu também tinha a mesma reação de todos os brasileiros que conhecem você… Todo mundo sem exceção reagia assim ‘Chi coitado do Paulo Emílio…’ e só depois punha-se a lamentar o que se perdeu. Todo mundo sem exceção reagia assim e eu querendo ler a sua entrevista, queria apenas saber como você tinha reagido e o que você estava sentindo. Todo mundo pensava em você primeiro antes de pensar no desastre em geral. Era como se você tivesse perdido um filho, um parente próximo”. Carta de Garino a Paulo Emílio sobre o incêndio da Cinemateca Brasileira, em 1957.

“Fomos a Catanduva buscar filmes. Era um grande depósito de filmes, enorme. Chegamos lá e havia só morcego. Nunca tive tanto medo e sai correndo, gritando pela rua. Eu tenho pavor de morcego. Foi um achado maravilhoso. Paulo ficou tão contente, pois eram filmes muito velhos. Mas, queimaram. Este incêndio foi uma coisa pavorosa. Foi um trauma medonho, um atentado para o Paulo Emílio”. Sônia Borges Veloso em entrevista a José Inácio de Melo e Souza.

“Vai ver muitos dos meus provavelmente poucos leitores se perguntam que Cinemateca é essa de que eu cuido e por outro lado gostariam de saber - sabe Deus porquê! - e se sou de briga. Pois não sou. E o divertido é que pensando bem verifico que não sou de briga precisamente porque o cuidado principal de minha vida é a Fundação Cinemateca Brasileira, tipo de coisa que não provoca controvérsia. Ninguém é contra. A vida Cinemateca depende de certa lei a ser votada pelos deputados federais. Pois todos eles, há muitos anos, são a favor. Houve um que a certa altura foi contra, mas por engano. O diabo é que era o então líder da maioria que significou para nós 4 anos de esforços perdidos. Mas foi tudo um mal entendido. Quando reina o bem entendimento são todos a favor. Unanimemente. A tal ponto que nunca discutem o assunto. E dele acabam se esquecendo. Quando a Cinemateca morrer será cercada por uma unanimidade de opiniões, legislativas e outras, que desejam sua vida. O que dá vontade de brigar”. Cinemateca e briga. Brasil, Urgente.

“Entrevistei o Paulo Emílio para o documentário que fiz sobre a Cinemateca Brasileira (Nitrato, 16 mm, 1974) quando esta encontrava-se no fundo do poço. Ele já tinha digerido todas as contrariedades e golpes que a realidade cultural e política brasileira tinha lhe proporcionado e que não foram poucas: a expulsão e desmantelamento da UNB, a ditadura vitoriosa, a Cinemateca nocauteada, enfim os anos 1970! Neste contexto, com sua verve de charmeur, Paulo descreve longamente seu gato Pungatti explicando que este, mesmo sendo vira lata, estava forte e saudável por ser bem tratado, exatamente o oposto da Cinemateca que abandonada agonizava. A tranquilidade e humor do Paulo ao desenhar esta fábula me chamaram a atenção do quanto ele já tinha compreendido a dificuldade e limitação que a realidade impunha e que transcendia completamente a sua capacidade de resistência e articulação. Pode-se dizer que o homem estava adiante de seu tempo e mantinha a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Meu Paulo Emílio, de Alain Fresnot.

MATURIDADE POLÍTICA E AÇÃO CULTURAL
“Para uma pessoa embaralhada na condição inconfortável e dramática de ex-comunista a solução mais fácil, às vezes extremamente tentadora, era o anticomunismo. Naturalmente que a natureza exata deste último não se delineava imediata e claramente ao espírito do interessado. O aspecto de defesa de valores é uma máscara que o anticomunismo abandona quando encontra condições favoráveis para manifestar sua plena virulência esterilizadora. Na cultura e educação, os dois únicos terrenos onde a ação me interessa, não vejo inimigo mais perigoso do que o assim chamado anticomunismo. Liberto há muito tempo das vendas do comunismo e imune para sempre do vírus desintegrador do anticomunismo – condição necessária para a razoável e perplexa sabedoria que vislumbro aos 45 anos de idade”. Introdução bastante pessoal. Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

“Já tentei (fazer política), há muito tempo, e fracassei. Política é ter certezas, ou fazer que as tem, e procurar impingi-las aos outros. Minhas eventuais certezas são por demais genéricas ou particulares e não valem para a ação”. Começo de conversa. Brasil, Urgente.

“No início de 1965, já passado, pelo menos, um semestre em Brasília dando um curso que tinha tido muita repercussão sobre Vidas Secas, isso no ICA - Instituto Central de Artes. Estava se montando um Instituto Central de Comunicações. Para montar os institutos centrais, quer dizer, a base de criação de um Instituto Central em Brasília era a existência de três cursos. Já existia um curso de jornalismo que era assumido pelo Pompeu de Souza, no qual seria o coordenador futuro do Instituto Central de Comunicações. Em 1964 o Pompeu e o Paulo Emílio resolvem montar o segundo curso do futuro Instituto Central de Comunicação que seria o curso de cinema. O terceiro seria montado posteriormente para então criar o Instituto. (...) O Paulo Emílio sai do ICA e se torna fundador do curso de cinema”. Jean-Claude Bernardet em depoimento ao Museu de Imagem e Som.

“Em 1969, com a cassação dos professores da USP, um grande número de colegas se reuniu no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia para estudar a renúncia como protesto e solidariedade. A tendência dominante parecia esta, mas Paulo Emílio a combateu com veemência, mostrando que estava em jogo uma questão política muito grave: a resistência à ditadura militar sob todas as formas possíveis; e o ato proposto equivalia a entregar posições ao inimigo. No mesmo sentido não trepidou em interferir nas deliberações de um departamento que não era o seu, para impedir a renúncia geral já decidida”. Informe político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

OS GESTOS DO HOMEM
“Querido Amigo, eu me encontro no hospital e beneficiado, portanto, de uma providencial “clareira” na vigilância policial, que me permite lançar este último apelo aos meus amigos. Mas eu devo retornar a prisão civil de Tunis uma hora ou outra. É por isso que eu quero me apressar em lhe explicar o que eu espero de você, de todos os amigos e conhecidos que possam me conhecer e me estimar para querer hoje me ajudar, e em particular os jornalistas ou as personalidades que possam dispensar qualquer benefício na redação de jornais e revistas de seus países. Eu acredito que para isso você é essencial. Um grupo de traficantes de filmes (a Société CO-TU-DIC e seus cúmplices estrangeiros), acreditando seus interesses ameaçados pelo novo Plan Quadriennal de Développement Cinématographique Tunisien (1969-72), no qual eu sou apenas o relator geral e convencidos que eles devem me abater para salvar seu tráfico muito lucrativo, elaboraram um ‘dossiê secreto!’ me acusando de subversão comunista, de sabotagem econômica, de má gestão administrativa, de um punhado de delitos criminais, e imoralidade e de costumes incompatíveis com minhas altas funções de Diretor da Cinématographie Tunisienne. Eles transmitiram o dossiê ao Chefe de Estado, o Presidente Bourguiba (...). Eu me encontro na prisão por crimes absolutamente imaginários”. Carta de Tahar Cheriaa a Paulo Emílio, 1969.

“Senhor Presidente. Há cerca de três meses tivemos a honra de lhe escrever. Nós pedimos vossa autorização em vista de um testemunho que nós gostaríamos de enviar às autoridades judiciárias tunisianas sobre o senhor Tahar Cheriaa, que nós conhecemos no quadro dos trabalhos da UNESCO, tanto na África quanto na América do Sul. Nós vos dizíamos nossa angústia em saber de sua prisão desde março, e de nossa certeza que um processo legal dissipará rapidamente esse pesadelo. A nosso ver, o marcante trabalho que o senhor Cheriaa possui a frente do cinema tunisiano era inseparável de vossa grande obra nacional, que nós aprendemos a compreender e a admirar. Hoje nós recebemos a triste notícia que o senhor Tahar Cherria ainda está na prisão, que ele está doente e que seu processo ainda não começou: é este último ponto que se deve o centro de nossas preocupações. É com muita confiança, senhor Presidente, que nós lhe dirigimos este segundo apelo: que assegure a nós e ao senhor Cheriaa a possibilidade de se defender em um processo regular, no qual ficaríamos muito honrados em participar como testemunhas. É com respeito e admiração por vós e pela Tunísia que nós somos a vós devotados”. Carta de Paulo Emílio ao Presidente da Tunísia, 1969.

“Quando eu estava com problemas sérios, eu telefonava ou visitava o Paulo Emílio. Como aconteceu em 1973, quando eu fui preso (...). Era uma repressão da Aeronáutica. (...) Depois de apanhar muito, (...) eles me soltaram. Eu fiquei muito deprimido. Saí do carro deles sem saber o que fazer. E pensei em quem? Paulo Emílio. (...) No outro dia estava falando com o Paulo Emílio e contando exatamente todos os problemas da repressão e tal, todo mundo sofrendo, e repressão lá fora, aqui dentro. O que fazer? E eu estava muito deprimido e falávamos da subversão do Desafio. Ai o Paulo Emílio deu uma risada e falou assim: ‘Pega o jornal aí’. Aí vi que ia passar exatamente naquele dia na TV-Cultura, O desafio. Vimos juntos o filme. E ele fechou a janela, dizendo que estava com medo que os vizinhos estivessem ouvindo os diálogos do filme. Ele teve sempre um grande humor”. Paulo César Saraceni em depoimento a José Inácio de Melo e Souza.

HOMEM SOL
“O Paulo Emílio humano, o político, o esteta, o sentimental e mesmo o Paulo Emílio religioso' conviviam numa imutável harmonia dentro daquele corpanzil imponente e quando não se comunicava com o mundo através da palavra escrita, utilizava, uma extraordinária voz de barítono à qual era impossível ficar indiferente. Uma palestra sua resultava sempre num espetáculo digno de nota. Explicava as coisas do cinema de forma extremamente pessoal, usando exemplos e deduções tão nítidas que se tornava impossível uma não sintonia de conclusões. Ver e discutir cinema passa a ser coisa palpável, diria mesmo quase corriqueira, sem solenidade ou compromisso. Perdemos uma figura de primeira grandeza no panorama de nossa cultura. Uma personalidade múltipla altamente preocupada com os destinos do mundo (tão ‘ambíguo’ para ele como o próprio cinema). Se me permitirem uma metáfora final diria tratar-se da reencarnação de Paulo de Tarso a caminho de Damasco, subitamente ofuscado pelo cinematógrafo a lhe projetar simultaneamente Greed (Ouro e Maldição), de Stroheim e Outubro de Eisenstein, a grande epopeia da Revolução Soviética de 1917”. Ao mestre com Carinho, de David Neves.

“Quem não o conheceu em vida não pode ter ideia da força irradiante de sua personalidade. Seu maior gosto era despertar os espíritos, suscitar questões, provocar debates. Revelar aspectos da realidade ignorados por alguém era tarefa a que nunca se furtava. Tudo o que de mais elevado se expressa na palavra generosidade encarnava-se no seu modo dese ser”. Ouvir Paulo Emílio, de Ruy Coelho.

“O Paulo Emílio viajou para a Europa, numa viajem mais ou menos longa. Para essa viagem ele constitui um grupo de pessoas que pudessem substituí-lo na coluna do Suplemento Literário. Entre essas pessoas havia o Rudá, o Gustavo, o Capovilla... ele me convidou e eu recusei. Eu não me achava absolutamente capaz de fazer esses artigos enormes que publicavam aos sábados no Estado. Ele ficou insistindo, insistindo, mas eu recusei e não cedi as pressões do Paulo Emílio até o momento em que chegou o último dia dele na Cinemateca antes da viagem. Ele voltou a insistir, a me pressionar e foi, talvez, o único momento de uma relação agressiva entre o Paulo Emílio e eu. Mais uma vez eu recusei e ele me disso: “Você vai fazer!”. Virou as costas e foi embora sem dar tempo de, mais uma vez, negar a solicitação que ele estava fazendo. Eu me encontrei, já que ele tinha me dado às costas, não me tinha dado tempo de responder, mais ou menos na obrigação moral de cumprir isso, já que no final eu não tinha dado um não definitivo. E foi assim que eu comecei a escrever”. Jean-Claude Bernardet em depoimento ao Museu de Imagem e Som.

“A Cinemateca de São Paulo era a Catedral, Paulo Emílio Sales Gomes, o Papa, enquanto os cardeais e padres brigavam nos bares e clubes de cinema das províncias. (...) Lendo Paulo Emílio Sales Gomes descobri as relações do Cinema com a Revolução, e saquei o sentido dialético da expressão ‘Síntese das Artes’ Revolução do Cinema Novo, de Glauber Rocha.

“Quem conheceu Paulo Emílio nos anos 1970 tomou contato com o intelectual jacobino das campanhas nacionalistas, arguto analista das questões do cinema brasileiro, estudioso de Humberto Mauro, soma de ficcionista e crítico da cultura que nos ajudou a formar uma nova percepção do país e dos caminhos de invenção no subdesenvolvimento”.A Estratégia do Crítico, de Ismail Xaxier.

“Desde o início, Paulo conquistara a atenção de todos, vencendo o cansaço próprio dos finais das defesas de tese. Sua palavra foi ganhando o silêncio, até atingir um clímax dramático. À representação teatral dissimulada que acaba sendo toda a cerimônia desse tipo, Paulo Emílio contrapunha o verdadeiro teatro. Toma conta do palco e muda o rumo do espetáculo, trazendo novo alento a todos nós: banca, público e candidata, confundidos agora no único papel possível - plateia exclusiva de Paulo Emílio Sales Gomes”. Paulo Emílio em Banca de Tese, de Lígia Chiappini Moraes Leite.

NA MIRA DA DITADURA
“No fim de 1974 as autoridades de segurança que funcionavam à socapa na USP vetaram a renovação do seu contrato na Escola de Comunicação e Artes. A Reitoria o aconselhou a conformar-se para não piorar as coisas e esperar outra oportunidade, que na certa viria, etc. etc. Diferente de alguns colegas em circunstância semelhante, Paulo declarou tranquilamente ao reitor que pretendia, ao contrário, fazer o maior barulho possível e criar um caso. Houve o que era viável naquele tempo de arrocho total: uma grande homenagem a ele no Clube dos Artistas e Amigos da Arte (Clubinho), comissão de professores pressionando a Reitoria, etc. Resultado: o contrato se renovou e o papão ficou meio desmoralizado”. Informe Político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

“Todos sabem que meu caso não é único; meu nome está incluído numa lista de dez, por enquanto. Conforme indiquei, a tendência da operação é desenvolver-se sigilosamente. Esse cálculo é facilitado pelo silêncio que, por motivos diversos, preferem man­ter as pessoas envolvidas no processo. As vítimas designadas, nutrem a ilu­são de que só a discrição poderá sal­vá-las. A hierarquia universitária ma­nifesta pudor em tornar pública a coação a que está sendo submetida. E, finalmente, os mais interessados no silêncio são os conspiradores que agem na sombra. De minha parte, es­tou convencido de que a única e longínqua chance que tenho de salvar o meu trabalho universitário é procurar esclarecer tudo publicamente”. Vida de Professor.

“Como se inferidas informações prestadas pelas diversas unidades deste Departamento de Ordem Política e Social longa e ativa é a militância do epigrafado como contestador do regime democrático e a soldo do comunismo internacional. Desde os bancos acadêmicos, colocou o saber e experiência a serviço dos interesses moscovitas, como jornalista radicado ao O Estado de S. Paulo, ao grupo Gasparian ou à revista Visão. Como professor universitário do Instituto Central da Universidade de Artes de Brasília, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, dos quais foi exonerado por seu proselitismo marxista; como participante de diversas ‘entidades culturais’, sindicais, etc. E agora, como ‘prêmio’ por sua atuação nociva à sociedade e À Pátria, é nomeado para o exercício de alto cargo na Prefeitura desta Capital, onde certamente continuará a solapar os legítimos interesses de nossa cultura. No exercício de uma função diretiva em nosso município, será mais um posto de comando, para que os interesses do Partido Comunista sejam ‘protegidos’, não por um ‘inocente inútil’, mas sim por um militante ativo e consciente”. Departamento Estadual de Ordem Política e Social. São Paulo, 28/04/1977.

O GOSTO PELA FICÇÃO
“Em matéria de escrita nada me dá mais prazer do que escrever ficção. Mas ainda não tive ocasião de testar se o leitor terá o mesmo prazer em ler. Se isso acontecer com essas novelas (Três mulheres de três Pppês), tenho a impressão de que vou ficar muito agitado e escreverei outras. Sei lá. Nunca me senti criador e o prazer de criar por si só não é nada”. A literatura em nosso cinema. Última Hora.

“Paulo Emílio começou a escrever esse romance em 1976 na Rua Sabará onde morávamos. E foi terminá-lo nas nossas férias no pequeno e florido balneário de Águas de São Pedro. Verão, o calor. Era aconchegante o nosso pequeno apartamento, cada qual instalado na sua mesa, as janelas abertas e o ventilador ligado. Na minha máquina portátil eu escrevia os contos do Seminário dos Ratos e Paulo Emílio ia terminando o romance no maior entusiasmo, o cigarro aceso, o bule de café por perto, uma garrafa de água mineral e as canetas dentro de um copo. Ao anoitecer, depois do chuveiro morno, descíamos felizes para o bar do hotel para a caipirinha bem gelada, um brinde, tarefa cumprida, hein?”. Um Retrato, de Lygia Fagundes Telles.

COISAS NOSSAS
“Estive muito tempo na Europa, na França e até cheguei a sonhar em francês. Voltei para cá num momento que não sei definir. O fato de ter sido comunista na juventude não mudava nada. Pensávamos sempre nos grandes países em torno dos quais as coisas giravam. Quando conheci Humberto Mauro não dei a mínima importância. Meu interesse por cinema brasileiro não existia, acho que como para muita gente”. Entrevista concedida a Cláudio Kahns.

“O fato de o cinema brasileiro não ter existido para mim, durante muito tempo, é uma coisa da qual eu tenho vergonha, eu me penitencio, de forma que eu acho normal que aconteça com os outros. Você sabe que nós temos sempre uma tendência a nos colocar como modelo. Seguindo essa fraqueza, eu acho muito triste que os de minha geração continuem a levar em consideração somente o cinema estrangeiro, portanto eu tenho a impressão de ter progredido muito em hoje só me interessar por Cinema Brasileiro”. Eu só gostava de cinema estrangeiro. Entrevista de Paulo Emílio a Carlos Reichenbach, Eder Mazini e Inácio Araújo.

“Procuro ser compreensivo com muito do que leio e ouço por aí em torno de cinema brasileiro. Tenho ótimas razões para ser bonzinho: desconheço alguém tão totalmente colonizado quanto fui. Daí praticar minha exibição como exemplo, o que não é mais pecado a julgar pelo exército, digamos da salvação. Permaneço convencido de que se pude ser descolonizado, então é porque essa graça de libertação se encontra ao alcance de qualquer um de nós”. Festejo muito pessoal.

UM SOL QUEBRADO
“Nesse homem solar, irreverente e sarcástico, sempre pronto ao humor e à percepção do ridículo, capaz de gozações incríveis, a disposição de respeitar o próximo e preservar a sua liberdade era quase religiosa. Ele a construiu com um esforço por vezes dramático, que lembra a atitude agônica do cristão de Pascal; e se não foi um líder constante, nem mesmo um político propriamente dito, foi uma fonte de inspiração de conduta política”. Informe Político, de Antonio Candido de Mello e Souza.

“‘Morto, faz lembrar o versos de Mário de Andrade: um sol quebrado’. Assim o professor e crítico Antonio Candido falou sobre Paulo Emílio Sales Gomes, amado amigo de geração e de luta”. Um Retrato, de Lygia Fagundes Telles.

“Não bastassem o prazer que a leitura de Paulo Emílio proporciona e a revelação de uma trajetória de vida que o manteve sempre na linha de frente de sua geração, a reintrodução das suas ideias entre nós serve ao menos como estímulo: o brilho e a originalidade da sua inteligência ainda vão, por muito tempo, nos surpreender”. Vontade de livro, de Carlos Augusto Machado Calil.