CINEMA SILENCIOSO JAPONÊS
AS FONTES DO ANIME
Akira Tochigi
curador do acervo de filmes do Centro Nacional de Cinema / Tóquio
Para aqueles que estão familiarizados com a alta qualidade e o reconhecimento internacional do cinema de animação japonês contemporâneo, pode ser surpreendente saber que as primeiras décadas de sua história conheceram uma série de dificuldades devidas à grave falta de recursos e ao mercado comercial.
Cinema e animação foram originalmente trazidos para o Japão como culturas importadas. Por volta dos anos de 1896-97, comerciantes japoneses importaram o quinetoscópio e o vitascópio de Edison e o cinematógrafo dos Lumière por diferentes vias e realizaram exibições dessas novidades. Consta que os filmes de animação apareceram nas telas japonesas antes de 1910 e receberam especial predileção por parte do público. Em particular os filmes do francês Émile Cohl, que apresentavam o herói “Le fantoche”, tornaram-se tão populares sob o título japonês de Um novo caderno de desenhos de Dekobo (como se denominou o garoto herói), que esse nome foi usado na época como o equivalente japonês para a palavra “animação”.
Em 1917, vinte anos após a importação do cinema, três artistas começaram simultaneamente a realizar filmes de animação no Japão. O cartunista e caricaturista Oten Shimokawa foi procurado pelo estúdio Tenkatsu para fazer filmes de animação no estilo de Cohl. Junichi Kouchi, outro cartunista de jornais diários, foi solicitado pelo estúdio Kobayashi Shokai para trabalhar em algumas animações. Seitaro Kitayama, estudioso e editor de pinturas ocidentais, estimulou a produtora Nikkatsu, o primeiro grande estúdio japonês, a financiar seus curtas de animação para públicos jovens. Kitayama criou seu próprio estúdio em 1921 e fez filmes de animação promocionais encomendados por uma agência do governo, enquanto Kouchi trabalhou em uma série de animações de propaganda para a prefeitura de Tóquio em seu próprio estúdio.
Na trilha desses pioneiros, jovens artistas talentosos entraram no campo da realização cinematográfica de animações no final da década de 1920 e início da seguinte. Sanae Yamamoto fez muitos trabalhos encomendados pelo Ministério da Educação; Yasuji Murata, um prolífico realizador de animações, trabalhou para o estúdio Yokohama Cinema, uma das mais antigas produtoras de filmes educativos; Mitsuyo Seo começou sua carreira de animador na Liga do Cinema Proletário, um grupo de artistas e professores universitários de esquerda, fundado em 1929, e trabalhou em uma série de animações de personagens em seu próprio estúdio. Mesmo Kon Ichikawa, o grande realizador de Nobi/Fogo na planície (1959) e Yukinojo henje/Por ordem do destino (1963), começou sua carreira como animador no estúdio J.O., em meados dos anos 1930. Usando bitolas de pequeno formato, como o Cine Kodak 16mm e o Pathé Baby 9,5mm, realizadores amadores do período também se interessaram por animação tanto dentro do contexto do movimento marxista quanto em produções domésticas.
Entretanto, as produções comerciais de animação sempre sofreram de uma séria carência de recursos. Muitos desses primeiros artistas de animação habitualmente faziam seus filmes em seus próprios estúdios, com pequeno capital. Tentativas de trabalhar com grandes produtoras como a Nikkatsu e a Shochiku alcançavam apenas sucesso relativo, porque muitos executivos dos estúdios não se dispunham a financiar essas pequenas produções, preferindo importar e distribuir para os ávidos expectadores japoneses animações estrangeiras mais sofisticadas. Em decorrência disso, a maior parte dos cineastas de animação era obrigada a fazer animações para audiências jovens, e ficava na dependência do circuito de filmes educativos financiado pelo poder público.
Em resposta a um acalorado debate sobre a influência do cinema nas platéias jovens, que atravessou a década de 1910, o governo japonês formulou, no início da década seguinte, políticas cinematográficas com um duplo objetivo: o Ministério da Educação promoveria o uso educativo de filmes através da concessão de certificados a filmes selecionados, organizaria sua exibição e iniciaria uma produção própria de longas, documentários e animações; o Ministério do Interior, por sua vez, estabeleceu em 1925 a censura governamental para cada cópia de filme. Nesse contexto político, a animação era chamada manga eiga (filme de desenho) e considerada um ramo do cinema educativo voltado para crianças. Muitos artistas de animação japoneses só puderam fazer filmes sob a bandeira oficial da educação.
Essa situação de pobreza financeira e exigüidade de mercado para a animação japonesa continuou mesmo depois da Segunda Guerra Mundial e a ocupação que se seguiu a ela, embora no início da década de 1940 alguns poucos longas-metragens de animação tivessem sido produzidos como propaganda de guerra, ativamente apoiados por órgãos militares.
Foi entre o final dos anos 1950 e início dos 1960 que uma nova fase da animação japonesa aconteceu nos setores comercial e não-comercial. A Toei, uma das maiores produtoras do pós-guerra no Japão, estabeleceu em 1958 a companhia Toei Doga (atualmente Toei Animação) para a realização de longas-metragens comerciais de animação. Ao mesmo tempo, Osamu Tezuka, um cartunista popular, iniciou a produção de Tetsuwan Atomu/O garoto atômico, a primeira série animada feita para a televisão no Japão. Por outro lado, sob a influência de artistas de animação como Norman McLaren, muitos jovens artistas organizaram em 1960 projeções de seus trabalhos de animação independentes e apresentaram seus filmes usando a palavra “animação”, que tinha uma conotação de cinema independente, pessoal e experimental para públicos adultos sofisticados, na contracorrente da produção de animação voltada para crianças no contexto japonês da época.
Com uma pequena seleção de quatro filmes, o programa “As fontes do anime” apresenta alguns artistas importantes na história pioneira da animação japonesa. Noburo Ofuji iniciou seu aprendizado no estúdio de Juichi Kouchi, criou o Jiyu Eiga Kenkyujo (Instituto do Cinema Livre) e realizou Bagudajo no tozoku/Ladrões do Castelo Ba-gh-da (1926). Usando chiyogami (um tradicional papel japonês colorido), Ofuji continuou fazendo animações de forma independente até sua morte em 1961. Ele sempre se interessou por novos métodos e tecnologias de realização. Por volta do ano de 1930, ele fez uma série de filmes “falados em disco”, um tipo de filme com som gravado em disco projetado originalmente em sincronismo com o som de um gravador de velocidade padrão. Mais tarde em sua carreira, Ofuji usou celofane colorido em animações de silhuetas, como em Kujira/Baleia, aclamado no Festival de Cinema de Cannes em 1953.
Kenzo Masaoka, indiscutivelmente um inovador da animação japonesa, nasceu e foi educado em uma família de classe média. Com formação universitária em artes plásticas, Masaoka entrou para equipes de filmes de longa metragem na Makino Produções como cenógrafo e ator. Depois, interessou-se por animação na produtora Nikkatsu e fez sua estréia como diretor em Nansensu monogatari dai ippen: Sarugashima/História sem sentido, vol.1 – A ilha do Macaco, na Nikkatsu. Depois de sair desta produtora, colaborou com a Shochiku para o primeiro filme de animação falado no Japão (som gravado na película), Chikara to onna no yononaka/Um mundo de poder e mulheres, em 1932, e trabalhou em animações em celulóide, também pela primeira vez no Japão, como em Changama ondo/A canção da família Chagama, em 1934. Em seguida, criou o estúdio Nihon Doga Kyokay, que produziu jovens artistas talentosos. Com a palavra “doga”, que significa imagens animadas, Masaoka tentou elevar a animação a um nível de qualidade para lançamento comercial, para além da categoria de filme educativo, com a animação de silhuetas, de bonecos e de papéis recortados.
Creditado como um dos diretores de Kanimanji engi/A lenda do Templo do Caranguejo, Hakuzan Kimura, considerado um dos artistas da segunda geração da animação japonesa, trabalhou para a produtora independente de filmes educativos Asahi Kinema. Infelizmente apenas alguns de seus filmes sobreviveram. Em 1932, Kimura completou uma animação pornográfica, Suzumi-bune/Um barco para o calor da tarde, à maneira do ukiyoe, mas foi preso e o filme, confiscado. Tomu Uchida, outro diretor de Kanimanji engi/A lenda do Templo do Caranguejo, tornou-se posteriormente um mestre do cinema histórico e de dramas contemporâneos em diversas produtoras (seu Keisatsukan/Policial, de 1933, faz parte do programa de filmes japoneses da Jornada). Embora não seja clara qual foi a contribuição de Uchida na feitura desse filme, é certo que o período inicial da animação japonesa, apesar dos escassos recursos de produção e do mercado limitado, ainda assim inspirou muitos artistas jovens e estimulou sua energia criativa.
Indubitavelmente, o programa “As fontes do anime” abrirá os olhos dos expectadores para a imaginação fértil e a inesgotável criatividade da animação japonesa dos primeiros tempos, e possibilitará uma melhor apreciação do anime japonês em seu contexto histórico.
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