8 a 17 de agosto de 2008
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
São Paulo
PAOLO CHERCHI USAI APRESENTA

Ensaísta, historiador do cinema, ex-curador de Departamento de Cinema da George Eastman House (EUA), atual diretor do Arquivo Nacional de Cinema e Som da Austrália, um dos fundadores e dirigentes das Giornate del Cinema Muto de Pordenone (Itália), Paolo Cherchi Usai alia o pensamento instigante a uma prática ininterrupta. Espírito irrequieto, há dois anos realizou o longa-metragem Passio, meditação audiovisual diretamente relacionada com o livro que considera seu trabalho mais importante: The death of cinema (A morte do cinema).

Paolo Cherchi Usai é um dos expoentes do movimento chamado, desde a década de 1980, de Nova História do Cinema, e que teve um de seus motores no Congresso da Federação Internacional de Arquivos de Filmes – FIAF, realizado na cidade inglesa de Brighton em 1978.

Além da seleção dos cinco filmes que compõem esta mostra, Paolo Cherchi Usai faria uma conferência ao público da II Jornada, mas por motivos de ordem profissional infelizmente não pôde comparecer ao evento.

O historiador enviou uma carta aberta ao público, disponível abaixo e acompanhada de dois textos exclusivos para a II Jornada.


Carta aberta ao público da Jornada   leia mais
Duas ou três coisas que sei do cinema silencioso   leia mais
A urgência de criar visões   leia mais


A NOITE DA VINGANÇA (HAEVNENS NAT)    ver imagem
Dinamarca, 1916, 35mm, branco e preto com viragem e tingimento, 100min

cp: Dansk Biografkompagni. d: Benjamin Christensen. r: Benjamin Christensen. df: Johan Ankerstjerne. e: Benjamin Christensen (John Sikes), Karen Caspersen (Ana), Peter Fjelstrup (Dr. Richard West), Charles Wilken, Ulla Johansen, Jon Iversen, Aage Schmidt, Mathilde Nielsen, Karl Gottschalcksen, Grethe Brandes, Elith Pio, Fritz Lamprecht, Osvald Helmuth, Otto Reinwald, Jørgen Lund, Marie Pio, Karen Sandber.

John Sikes, um artista de circo, é injustamente acusado de um crime cometido por outra pessoa. Em fuga com seu filho, ele entra em uma casa e pede ajuda a uma garota chamada Ana, mas acaba sendo capturado e preso. Catorze anos se passam. Ana está casada com o Dr. Richard West. John é libertado por bom comportamento. Sai então à procura de seu filho em um orfanato e descobre que o menino fora adotado. Um flashback mostra que o bebê havia sido adotado por Ana e Richard West. Na prisão, John conhecera Sam Morton, membro de um bando de seqüestradores de cães, que vende um cachorro para o Dr. Richard. Quando este vai para sua casa de campo com a família, o bando assalta a residência da cidade. Entre os objetos roubados, John reconhece uma caixa que pertence a Ana, a mulher que ele acredita tê-lo denunciado anos antes. Parte então em busca de vingança.


A TRINDADE MALDITA (THE UNHOLY THREE)    ver imagem
EUA, 1925, 35mm, branco e preto com viragem e tingimento, 80min

cp: Metro-Goldwyn-Mayer Corporation. p: Tod Browning. d: Tod Browning. r: Waldemar Young. df: David Kesson. mo: Daniel J. Gray. c: Cedric Gibbons, Joseph Wright. e: Lon Chaney (Professor Eco, o ventríloquo), Mae Busch (Rosie O’Grady), Matt Moore (Hector MacDonald), Victor McLaglen (Hércules), Harry Earles (Tweedle Dee), Matthew Betz (detetive Regan), Edward Connelly (juiz), William Humphreys (advogado de defesa), A.E. Warren (promotor).

O Professor Eco, o forte Hércules, o anão Tweedle Dee e Rosie O’Grady fazem parte das atrações de um circo. Rosie, namorada de Eco, é a encarregada de furtar espectadores durante o espetáculo. Eco trama um esquema para enriquecer tão bem planejado que imagina que nenhum policial poderia desvendá-lo. Em uma pequena cidade, Eco abre uma empresa, a Loja de Pássaros O’Grady, para comércio de aves falantes. O negócio pertence à “avó” (Eco travestido) de Rosie. Com habilidades em ventriloquia, Eco e seus comparsas vendem papagaios “falantes”. Quando os clientes reclamam que as aves não falam, Vovó O’Grady presta atendimento em domicílio, e leva consigo o “pequeno” Willie – Tweedle Dee disfarçado de bebê. Do carrinho de bebê, o anão perscruta silenciosamente a casa dos clientes à procura de objetos valiosos, enquanto Eco entretém os donos com sua atitude solícita. A Trindade Maldita – Eco, Tweedle Dee e Hércules – volta na calada da noite e limpa a casa. Hector MacDonald – jovem ingênuo contratado como balconista da loja – apaixona-se por Rosie e desperta o ciúme de Eco. Tweedle Dee e Hércules, irritados com a liderança ditatorial de Eco, fazem um assalto sozinhos e cometem um assassinato. Hector é incriminado e preso, enquanto a Trindade Maldita refugia-se nas montanhas. O amor de Rosie por Hector, contudo, provoca uma atitude altruística de Eco e o fim do bando.


SHIRAZ – O TÚMULO DE UM GRANDE AMOR (SHIRAZ)    ver imagem
Índia, Inglaterra, Alemanha, 1928, 35mm, branco e preto, 97min

cp: Himansu Rai Film, British Instructional Films, Limited e Universum-Film Aktiengesellschaft – UFA. p: Himansu Rai. d: Franz Osten. r: William A. Burton, baseado na peça de Niranjan Pal. df: Emil Schünemann, H. Harris. da: Lala Brigmohontal, Promode Nath. e: Himansu Rai (Shiraz), Charu Roy (Príncipe Khurram/ Xá Jehan), Seeta Devi (Dalia), Enakashi Rama Rau (Princesa Selima/ Mumtaz Mahal), Maya Devi, Profulla Kumar.

Uma horda de bandidos assalta uma caravana e o único sobrevivente é uma princesa ainda criança. Encontrada por um ceramista, recebe o nome de Selima e é criada pela família junto com Shiraz, filho do ceramista. Já adulta, Selima é raptada por caçadores de escravos. É vendida para a corte real do príncipe Khurram (futuro Xá Jehan), que se apaixona por ela. Graças a artimanhas da pérfida Dália, o príncipe encontra Shiraz no quarto de Selima e o condena à morte. Desfeito o engano, e descoberta a origem nobre de Selima, ela se torna a imperatriz Mumtaz Mahal. Anos depois, quando morre, o Xá Jehan e Shiraz constroem um monumento a sua memória, o Taj Mahal.


SOLIDÃO (LONESOME)    ver imagem
EUA, 1928, 35mm, branco e preto com viragem e tingimento, 70min

cp: Universal Pictures Corporation. d: Paul Fejos (Pál Fejös). r: Edward T. Lowe Jr., Tom Reed, baseado em história de Mann Page. df: Gilbert Warrenton. mo: Frank Atkinson. e: Glenn Tryon (Jim), Barbara Kent (Mary), Fay Holderness, Gusztáv Pártos, Eddie Phillips, Andy Devine, Edgar Dearing, Louise Emmons, Fred Esmelton.

Dois solitários na cidade grande se encontram e aproveitam as emoções de um parque de diversões em Coney Island durante uma tarde de sábado. Depois do dia feliz junto, um se perde do outro em meio à multidão.

leia mais sobre Solidão em O fan


UMA CASA EM DARTMOOR (A COTTAGE ON DARTMOOR)   ver imagem
Inglaterra, 1929, 35mm, branco e preto, 87min

cp: British Instructional Films, Limited e Svensk Filmindustri. p: Harry Bruce Woolfe. d: Anthony Asquith. ar: Herbert C. Price. r: Anthony Asquith. df: Stanley Rodwell, Axel Lindblom. e: Norah Baring (Sally, manicure), Uno Henning (Joe, assistente de barbearia), Hans von Schlettow (Harry, fazendeiro de Dartmoor), Judd Green (freguês), Anthony Asquith (homem de óculos no cinema).

Joe foge da cadeia, onde estava preso pela tentativa de assassinar Harry. Ao invadir a casa de Sally, relembra sua paixão por ela em uma barbearia do interior e o envolvimento da moça com Harry, com quem se casou. No final, Joe prova a Sally que não poderia continuar vivendo sem ela. Uma casa em Dartmoor é provavelmente o melhor filme inglês do período silencioso.

A barbearia de uma pequena cidade serve de pano de fundo para um triângulo amoroso alimentado pelo ciúme. O filme mantém perfeitamente o equilíbrio entre a narrativa e a habilidade técnica, enquanto Asquith explora as possibilidades criativas da câmara, da montagem veloz e dos efeitos especiais, garantindo vários momentos virtuosísticos. Merece destaque a seqüência em que o público de uma sala de cinema assiste à projeção de um filme sonoro. Asquit supera habilmente a dificuldade em sincronizar som e imagem e, sem sacrificar a fluidez da câmara, nos mostra a reação do público ao som em vez de filmar a tela com a projeção do filme sonoro. Nesta seqüência, os membros da orquestra, tão animados nas projeções de comédias silenciosas, param de tocar e começam a jogar cartas, uma velha senhora recorre a seu aparelho de surdez para ouvir melhor o filme e nossa atenção é deslocada do filme projetado para a emoção presente nas faces do público.

Trecho da resenha de Bryony Dixon para o catálogo Le Giornate del Cinema Muto 2004.


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