PAOLO CHERCHI USAI APRESENTA
CARTA ABERTA AO PÚBLICO DA JORNADA
A vida em um arquivo de filmes é uma estranha mistura de cultura, economia e política. Minha mãe ainda tem dificuldade em entender qual é de fato a minha profissão: para ela, trabalhar em um arquivo de filmes significa, simplesmente, mexer com filmes. Sempre que nos encontramos, a nossa conversa segue o mesmo padrão: ela me pergunta como vai o trabalho; eu digo que está tudo bem; aí ela balança a cabeça: “Eu não consigo entender... eu simplesmente não consigo entender... você passa o seu tempo assistindo filmes?... e você ainda é pago para isso?”
Se ela soubesse como as coisas são de fato... A realidade no Arquivo Nacional de Cinema e Som da Austrália, atualmente, é de predominância da política sobre qualquer outra coisa. No dia 1º de Julho de 2008 tornamo-nos uma organização independente, respondendo diretamente ao Ministro das Artes, o que é uma novidade incrível. Temos controle total de nosso orçamento, o que também é uma ótima notícia. Resumindo, podemos construir nosso próprio futuro, o que é o sonho de qualquer arquivo de filmes. Mas, uma nova organização também requer uma nova estrutura e a compreensão das novas regras do jogo. Independência significa liberdade, mas também uma grande dose de responsabilidade. Como em um novo país independente, estamos aprendendo as funções e obrigações envolvidas na relação direta com o governo, em nome do interesse público. Afinal de contas, é disso que trata a política.
Essa é a razão por que não posso estar com vocês hoje na celebração do trabalho extraordinário da Cinemateca Brasileira e de todos os arquivos de filme ao redor do mundo. Preciso ficar em Canberra e ajudar o arquivo no desenvolvimento de sua própria linguagem em um universo cultural altamente competitivo e exigente. Adoraria estar aí com vocês, assistindo filmes como minha mãe acredita que faço, e contando as histórias de minhas aventuras no maravilhoso mundo da preservação de filmes. Seria apenas justo afirmar que tenho uma relação muito especial com a Cinemateca Brasileira. Acredito que seja uma verdadeira amizade, alimentada pela minha admiração pelo trabalho desse arquivo, os vários projetos que desenvolvemos em conjunto e um respeito mútuo cultivado ao longo de muitos anos. Eu também organizo um festival de cinema e – acreditem -- sei como fico mal quando um colega ou um convidado, na última hora, precisa cancelar sua presença. Mas, nós também sabemos que esse tipo de coisa acontece e vocês, meus amigos, sabem que a minha ausência se deve a razões de força maior.
Eu voltarei a São Paulo – é uma promessa. Por enquanto, deixem-me dizer algo para o público da Jornada. Tenho trabalhado com muitos arquivos de filmes nos últimos vinte anos. Muitos deles são bons, alguns são ótimos, mas poucos podem ser definidos como especiais. A Cinemateca Brasileira é mais do que especial. Em minha modesta opinião, é um tesouro nacional. No entanto, vocês devem sempre ter em mente que o tesouro não é somente seu acervo de filmes. Ele é também as pessoas que aí trabalham, por seu conhecimento, sua paixão, seu entusiasmo e seu comprometimento com a arte do cinema. Essa combinação de qualidades é muito rara. Cuidem bem dela. Apóiem-na, garantam que as autoridades públicas e a mídia tenham pleno conhecimento da jóia que este país tem em suas mãos. Juntem-se a mim nessa amizade com a Cinemateca Brasileira e ela retribuirá e será uma amiga fiel. Essa amizade me tornou uma pessoa melhor e ela os ajudará a ser bons cidadãos do mundo. Vocês não se arrependerão.
Paolo Cherchi Usai
6 de agosto de 2008
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