8 a 17 de agosto de 2008
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
São Paulo
PAOLO CHERCHI USAI APRESENTA


DUAS OU TRÊS COISAS QUE SEI DO CINEMA SILENCIOSO

Sei que para a maioria dos cinéfilos, o cinema silencioso é uma curiosidade de especialistas, objeto de uma paixão excêntrica e antiquada. Pensam assim porque os habituamos a acreditar que os filmes dos primeiros trinta anos do cinema merecem ser vistos sobretudo como objetos de nostalgia ou exercício acadêmico. A esses digo que não sabem o que estão perdendo.

Comecei a gostar de cinema silencioso não porque tivesse a vocação de historiador ou de arqueólogo. Tinha, sobretudo, a impressão de que naquelas fitas esquecidas e consumidas pelo tempo havia um prazer da visão a ser redescoberto, um senso de invenção que deriva da sedução de um meio expressivo novo, dotado de possibilidades inexploradas. Colocando em outros termos: está à sua frente um instrumento do qual você nada sabe, mas que lhe parece rico de promessas. Esse instrumento não tem uma tradição à qual possa se remeter, não tem um passado, não tem mestres, ainda não tem história. Não será essa talvez a condição ideal para o florescimento do instinto criativo? Na falta de uma tradição, o olhar ainda pode se nutrir do sentido da surpresa que brota de não se esperar nada, de se deixar levar pelo inesperado, de saber ver sem preconceitos.

Quando vi pela primeira vez o filme de Benjamin Christensen, Haevnens nat/A noite da vingança (1915), não consegui acreditar que o cinema pudesse ser tão corajoso passados apenas vinte anos de seu nascimento. A câmara enquadra o exterior de uma casa. É noite e vemos apenas as janelas iluminadas. A certa altura, a objetiva começa a girar em volta daquele edifício imerso na escuridão, como numa vista aérea. Perguntei-me: “Como fizeram isso?” De repente, a objetiva se distancia, e mostra os protagonistas do filme ocupados em olhar a maquete de uma habitação que gira sobre si mesma. Fiquei deslumbrado. Não somente não se tratava de uma tomada externa; ainda por cima, os atores se apresentavam ao público no ato de examinar os locais em que a ação transcorreria. Chamem isso de cinema experimental, se quiserem. Para mim foi uma revelação – o fulgurante encontro com um thriller que desafia o tempo. Inexperiente como era, nunca teria imaginado ficar com a respiração suspensa com a trama de um filme de 1915.

Como também não teria imaginado me envolver tanto com A cottage on Dartmoor/Uma casa em Dartmoor, outro exemplo de suspense criado sem o auxílio de diálogos, sons ou ruídos, num único ambiente (a habitação que dá título ao filme). Dirigido por Anthony Asquith, de quem conhecia filmes do período sonoro (o primeiro dele que vi foi um filme de 1964, The yellow Rolls-Royce/O Rolls-Royce amarelo, que me deixou de queixo caído). Sempre me haviam dito que o cinema silencioso inglês não tinha muito a oferecer. Mas se pensamos que Hitchcock é um mestre, por que não deveríamos aplaudir de pé a perfeita articulação narrativa de A cottage on Dartmoor/Uma casa em Dartmoor?

Percebo ter escolhido filmes nos quais a arquitetura é o fio condutor. Shiraz/O túmulo de um grande amor também fala de uma construção, desta vez o Taj Mahal. A história do cinema silencioso indiano está intimamente ligada ao fenômeno do colonialismo, e Shiraz/O túmulo de um grande amor poderia ser considerado o símbolo da relação entre a cultura asiática e a européia. O filme foi rodado na Índia, sua história é parte integrante da tradição indiana, mas o diretor (Franz Osten) vem da Alemanha e a produção é de um estúdio britânico. Com seu ritmo onírico e sua fotografia sedutora, Shiraz/O túmulo de um grande amor dá a impressão de que os olhos podem acariciar a tela como os dedos podem roçar um traje de seda.

Pode-se dizer que essa sensação denota um quê decadente. É verdade que o cinema silencioso nasceu e cresceu paralelamente ao movimento literário e pictórico do decadentismo, e o russo Evgenij Bauer deu forma a esse ideal estético com suas mórbidas narrativas de amor e morte, com seus movimentos de câmara que acompanham o espectador numa espiral de obsessão e angústia. Já que falei em Hitchcock: não se pode assistir à obra-prima que é Grezy (1915) sem pensar em Vertigo/Um corpo que cai: a cena final do homicídio, na qual uma jovem é estrangulada com a trança de uma mulher morta há anos teria feito o mestre britânico do calafrio morrer de inveja.

E se o estrangulamento com a trança de uma defunta não lhes parece suficientemente bizarro, deixem que Tod Browning piore as coisas. Seu nome está ligado àquele filme “maldito” que é Freaks/Monstros (1932), mas a versão silenciosa de The unholy three/A trindade maldita (1925) também é digna do melhor repertório grand guignol – o próprio Browning fez outra versão do filme em 1930. Aqui também há suspense, agora na figura de um criminoso que oculta seus malfeitos sob sua própria aparência de recém-nascido. Lembro-me ainda do que pensei (era um iniciante), observando a cena do falso bebê que de repente fuma um charuto: se o cinema silencioso pode nos dar cenas como essa, preciso saber muito mais sobre ele. A curiosidade de freqüentar cinematecas também vem disso.

Paolo Cherchi Usai


A urgência de criar visões  leia mais

voltar