PAOLO CHERCHI USAI APRESENTA
SOLIDÃO
Berlim [Berlim: sinfonia de uma cidade/Berlin: die Symphonie der Großstadt, Walter Ruttmann, 1927] foi o poema da cidade. Solidão o do homem dentro da cidade. Em Berlim num dado momento todos se dirigem ao trabalho, em Solidão um homem se surpreende de todos irem ao trabalho no mesmo momento que ele vai. É a mesma matéria, somente os ângulos variam. Berlim é observada de fora para dentro, Solidão é a cidade de dentro para fora. Um vai da generalidade à particularidade, outra segue caminho inverso. Por isso em Solidão há lugar para a entrada do sentimento. Porque começa pelo homem e suas qualidades avultam num close-up exagerador. Enquanto em Berlim elas diluem-se num back-ground indeciso.
Por isso em Solidão impressiona à primeira vista o romance singelo vivido pelo herói. E certamente foi apenas essa impressão apressada que colheram todos aqueles que souberam ver unicamente uma formosa idéia numa história de simplicidade desconcertante com uns truques de câmara para atrapalhar.
Mas Solidão, com seu enredo débil, interpretação má de seus personagens, é a prova de que as grandes performances e as engenhosas complicações do entrecho quando muito deverão ser consideradas à maneira de coadjuvantes de importância certamente secundária, nunca porém elementos essenciais de um filme verdadeiramente de arte.
Trecho de artigo de Aluizio Bezerra Coutinho, Em demanda do cinema intelectual, publicado em O fan, n. 7, de janeiro de 1930.
[Solidão] é uma dessas obras delicadas que revelam gênios! O gênio, neste caso, é Paul Fejos. Que direção! Colossal! Como a objetiva sabia isolar um personagem em meio à multidão! Que vida naquelas seqüências! E que trabalho apreciável o de Barbara Kent! Foi, para mim, a única revelação do ano. Jamais acreditei que a leading-woman de Reginald Denny fosse capaz de tanto. Influência de Paul Féjos, talvez. Como quer que seja o filme é magnífico.
Trecho de artigo de A. Nogueira Junior, Retrospecto, publicado em O fan, n. 7, de janeiro de 1930.
Solidão se critica pelo que poderia ter sido. Solidão é grande, teria sido imenso se não se tivesse dado tantas concessões ao público. É a tragédia mais simples que eu já vi, é a tragédia do Homem na multidão, que nos é contada de certo modo nos moldes Murnaudescos. Solidão se aproxima um pouco de Aurora e em certos pontos é mais bem feita. O seu scenario é uma pequena obra-prima, perfeito no elemento tempo, com uma marcha de ação, um ritmo interior que vai do pianíssimo inicial ao fortíssimo climático numa ascensão gradativa verdadeiramente musical, podendo sob esse ponto de vista, ser considerado um filme tipo, um filme estalão.
Trecho de artigo de Almir Castro, 1929, publicado em O fan, n. 7, de janeiro de 1930.
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