DESTAQUES DE PORDENONE
“JORNADAS” QUER DIZER “GIORNATE”: O MELHOR DE PORDENONE
Esta programação é a primeira de uma série dedicada ao pai de todos os festivais voltados ao cinema dos primeiros tempos. Estamos particularmente felizes ao constatar que um dos rebentos de Pordenone está agora crescendo no Brasil, dentro deste formidável centro de iniciativas culturais que é a Cinemateca Brasileira. Temos mais de um motivo para nos orgulharmos com esse tributo prestado por instituição tão prestigiosa. Quem participou ao menos uma vez das Giornate del Cinema Muto, fundadas em 1982 – sob os auspícios da Cineteca del Friuli – por um grupo de apaixonados sem experiência e sem dinheiro, mas cheios de entusiasmo por um mundo que ainda tinha de ser descoberto, sabe bem que não se trata de um festival como todos os outros (tanto é verdade que o termo sequer aparece no nome do evento). Trata-se antes de um encontro de amigos reunidos pela curiosidade de rever o cinema silencioso – e, com isso, uma certa maneira de se entender o cinema – com outros olhos. A cada ano, em outubro, esse rendez-vous se repete com questões sempre diferentes: quais as surpresas que nos serão oferecidas por um cinema que há muito já faz parte da História? Haverá novos capítulos a serem escritos sobre a literatura das primeiras três décadas das imagens em movimento? Ainda encontraremos na frente da tela aquela felicidade do olhar que nos aproxima do espectador do início do século XX?
A atmosfera única das Giornate é fruto da escolha dos filmes propostos a cada ano e daqueles que assistem, comentam e escrevem sobre eles como se fossem obras inéditas. Mas a reputação dos encontros de Pordenone – e de Sacile, onde as Giornate encontraram abrigo por alguns anos, quando a administração municipal de Pordenone decidiu demolir o velho e glorioso Teatro Verdi para ali construir outro com o mesmo nome mas, pena!, sem o mesmo fascínio – deve-se também a alguns eventos especiais, a alguns títulos que assinalaram de modo indelével sua identidade cultural.
A obra-prima de Victor Sjöström, Berg-Ejvind och hans hustru/Os proscritos, é uma homenagem à legendária retrospectiva sobre o cinema nórdico anterior a 1918, organizada em Pordenone em 1986. Legendária porque até as cinematecas ainda se lembram dela: os nossos colegas das cinematecas de Estocolmo, Helsinque, Copenhague e Oslo supunham que se tratava da habitual seleção de dez ou vinte títulos representativos. “Bem, quantos filmes vocês querem exibir nas Giornate?” Nossa resposta foi que queríamos exibir todos, sem distinção de autoria ou de qualidade real ou suposta. Isso nunca tinha acontecido antes. Esse gesto estratégico tornou-se uma espécie de manifesto das Giornate, o reflexo do desejo de mostrar a história do cinema por aquilo que ela é e não por aquilo que gostaríamos que fosse.
Lonesome/Solidão, o filme que chamou novamente a atenção de todos para o nome de Pál Fejös, é um dos símbolos daquilo que os freqüentadores de longa data das Giornate chamam “o espírito de Pordenone”: um filme quase desconhecido, realizado por um cineasta de quem se sabia pouco, tornou-se o filme-evento do festival. Foi em 1994. Um grupo musical composto exclusivamente de percussionistas – a Alloy Orchestra de Boston – deixou os espectadores do Teatro Verdi boquiabertos com uma interpretação moderna, inspirada e heterodoxa de um filme que desafia o tempo graças ao impecável equilíbrio entre pathos e economia narrativa. A trama de Lonesome/Solidão é muito simples, mas consegue transformar uma história de amor como tantas outras em um dos thrillers mais consistentes que o cinema já nos ofereceu.
A propósito das histórias de amor, vocês precisavam ter visto os olhos marejados de lágrimas dos espectadores ao final da projeção de Lucky star, um dos melhores papéis de Janet Gaynor para a tela grande. O britânico Adrian Johnston compôs naquela época (1990) um daqueles milagres dos quais a música para o cinema silencioso é capaz, uma inesquecível partitura para one-man band, capaz de tornar acessível a poética de Frank Borzage mesmo para um público que nunca ouviu falar de cinema silencioso. Lucky star é um filme singelo e genial, o clássico exemplo de um cinema que sabe ser grande sobretudo quando se apóia em meios expressivos econômicos: apenas duas personagens, uma ação que se desenvolve quase inteiramente ao redor de uma mísera casinha no campo, uma relação que nasce e cresce à meia-voz, sem excessos melodramáticos. A lição do cinema silencioso reside também em seu poder de dizer tudo sem desperdiçar palavras.
A idéia base de Redskin/Pele vermelha é ainda mais simples. A vida dos índios da América é descrita em ostensivo Technicolor e a da então chamada “sociedade civilizada” transcorre toda em branco e preto com viragens sépia. O contraste entre os dois sistemas de vida e de valores é articulado por Victor Schertzinger (discípulo do grande Thomas H. Ince) com um sentido seguro do drama e sem nenhum tom de prédica. Nós o exibimos em Sacile em 2003 com acompanhamento musical (violino e guitarra elétrica) de dois brilhantes músicos da estirpe Apache.
As Giornate de Pordenone trouxeram à luz desde o longínquo 1982 nada menos do que 6.012 filmes. Escolher entre eles apenas cinco para esta introdução ao mundo mágico de Pordenone não é fácil, mas, por algum lugar deveríamos começar. Gostariam de nos visitar? Consultem o website
www.giornatedelcinemamuto.it e encontrarão todas as informações que procuram. O evento este ano vai de 4 a 11 de outubro. Se não puderem vir ao nosso encontro, não se ressintam: todos os anos lhes enviaremos o melhor das Giornate às Jornadas. A semelhança entre os nomes das duas manifestações não é um mero acaso.
Livio Jacob, David Robinson
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