8 a 17 de agosto de 2008
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
São Paulo
II JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO


A repercussão obtida pela primeira edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso surpreendeu a todos os envolvidos em sua concepção e realização. Não apenas porque imediatamente conquistou um público assíduo, ampliado a cada dia, mas também por ter despertado o interesse internacional. Pouco depois de encerrado aquele evento, foi do próprio comitê diretivo das Giornate del Cinema Muto – que ocorrem há quase três decênios em Pordenone, Itália, e é a maior manifestação mundial dedicada ao cinema silencioso, além de inspiração direta da nossa Jornada – que surgiu o convite para que nos tornássemos seu “correspondente estrangeiro”, dedicando anualmente uma seção da Jornada Brasileira à apresentação de destaques das Giornate.

Essa repercussão nos alegra muito, e ao mesmo tempo nos desafia a responder à altura a um compromisso nacional e internacional. Acreditamos que vencemos esse desafio com a configuração que desenhamos para a Jornada que ora se inicia.

Temos para todos os gostos: de faroeste a policial, do filme de guerra ao romântico – embora todos no fundo o sejam – e todos assinados pelos maiores diretores de cinema de toda a história. Nem todos, porém, de conhecimento geral. Um nome como Evgenij Bauer, por exemplo, certamente privará da intimidade de poucos. Felizes dos que já conhecem e que terão a rara oportunidade de rever dois filmes de um cineasta de carreira muito curta – de 1913 a 1917, ano em que falece de pneumonia – e de cuja obra somente um terço se conhece. Os deslocamentos de sua câmara em Depois da morte, numa seqüência de festa logo no início do filme, são de tirar o fôlego. E estamos falando de um filme de 1915, realizado na Rússia pré-revolucionária!

Bauer é um exemplo apenas. Temos um faroeste quase todo em Technicolor (Pele vermelha) que não trata os índios como débeis mentais ou inimigos (tanto que as seqüências em preto-e-branco são as que se passam na dita “civilização” branca), uma comédia australiana (O cara sentimental), um filme semi-indiano sobre a origem do Taj Mahal (Shiraz) e o segundo filme de Benjamin Christensen, como diretor e ator (A noite da vingança), tão conhecido por A feitiçaria através dos tempos (1922). E muito mais.

Reunir tudo isso não foi tarefa simples, mas foi didática. Para a seção japonesa –com a qual prestamos uma homenagem aos imigrantes que também construíram o Brasil como é hoje, e para a qual contamos com a dedicada colaboração de Akira Tochigi, do Centro Nacional de Cinema, de Tóquio –, gostaríamos de haver trazido Kurutta ippeji/Uma página de loucura (1926), mas os herdeiros do diretor e produtor do filme, Teinosuke Kinugasa, não admitem atualmente a circulação do filme. Constatamos que não é só a Cinemateca Brasileira que encontra eventuais problemas para a exibição de filmes que têm herdeiros “difíceis”. Também aprendemos um pouco como é negociar com as majors norte-americanas que ainda lucram com a exibição de seus filmes, mesmo quando nada investiram em sua preservação.

Para quem estranhe a presença de filmes sonorizados – um tem até seqüências faladas! – numa mostra de cinema silencioso, vai a resposta antecipada: a seção brasileira da II Jornada é dedicada ao Chaplin-Club, agremiação de adolescentes da elite que aconteceu no Rio de Janeiro em 1928 e durou dois anos. Apesar da curta vida, o ineditismo de seu pensamento em terras brasileiras foi tão marcante que os ecos dele repercutiram por décadas e atravessaram o século. Vale lembrar que um de seus membros, Plinio Süssekind Rocha, foi quem introduziu Paulo Emilio Salles Gomes – o criador em 1940 do primeiro Clube de Cinema de São Paulo, germe da futura Cinemateca Brasileira – ao universo do cinema. O Chaplin-Club surgiu exatamente no momento da transição do cinema silencioso para o cinema sonoro, e posicionou-se ferozmente contra o último.

Eu creio na imagem... Na imagem toda poderosa. Que autentifica [sic] o gesto. Que constrói o movimento. Que cria o ritmo. Que revela a alma. Que exprime o pensamento. Que não admite o som e não pode conceber a palavra. Na imagem que é imagem e só pode ser imagem...

Esse era o Credo de Octavio de Faria em O fan (setembro de 1929). Nós também cremos na imagem, mas isso não quer dizer que a Jornada Brasileira de Cinema Silencioso tenha sido criada contra o sonoro. O momento em que o cinema silencioso passou a ser sonorizado é extraordinariamente rico de significações e conteúdos a explorar. Terra natal, a primeira experiência sonora de Mizoguchi é uma curiosidade, mas não só isso. Na seqüência em que o herói, num baile, definitivamente se entrega à devassidão, uma jazz band toca (ouve-se!) um arranjo a charleston do terceiro movimento da sinfonia que Dvorák dedicou aos Estados Unidos. A combinação de imagens e música sugere uma crítica mordaz que parece óbvia hoje, mas que apenas investigações ulteriores poderão confirmar.

Foi aliás por não temer críticas que nosso convidado internacional é Paolo Cherchi Usai, intelectual que provoca e se provoca todo o tempo sobre a história do cinema e a função dos arquivos de filme. A própria seleção que propôs é cheia de provocações, como a solidão e a violência. Ótima oportunidade para perceber que nada disso é exclusivo dos dias que correm.

Opressão e liberdade talvez sejam os temas comuns aos filmes desta Jornada. Como escreveu Caroline Yeager num e-mail: “é um contraste maravilhoso ter O grande desfile (guerra, amor, perda, amizade) junto com Solidão (solidão, amor, perda, amor!) e A trindade maldita (estranho amor, cobiça, falsidade, crime). Que interessante intersecção de condições humanas!” E Leeann Dunggan, colega de Caroline na George Eastman House, ao mesmo tempo em que expressou sua satisfação por estarem participando da II Jornada, acrescentou que os filmes eram “um prato apetitoso”.

Aproveitem essas iguarias!

Carlos Roberto de Souza


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