SECRETARIA DO AUDIOVISUAL
Durante muito tempo o cinema das origens era encarado como um longo período de tateamento no escuro, um somatório de tentativas erráticas de aceder a uma "linguagem" intrínseca ao cinema, que relutava em ser descoberta. Algo como uma infância inconsciente, cujos resquícios serviriam apenas como testemunho de um primitivismo superado quando os diretores finalmente aprenderam a usar imagens em movimento para contar suas histórias.
Nas últimas décadas esta concepção vem sendo cada vez mais questionada. O marco mais visível desta guinada foi o Congresso da Federação Internacional dos Arquivos de Filmes, realizado em 1978 na cidade de Brighton, Inglaterra. O encontro proporcionou o agrupamento de diversos estudos que vinham sendo feitos isoladamente sobre o cinema dos primeiros tempos. E resultou na percepção de que existia um solo comum na reinterpretação daquele período.
A nova história do cinema, que foi sendo articulada nos anos seguintes, beneficiou-se das novas abordagens teóricas no campo dos estudos culturais. Nos Estados Unidos, Europa e Canadá, pesquisadores como Noël Burch, André Gaudreault, Charles Musser, Thomas Elsaesser e Tom Gunning, entre muitos outros, dedicaram-se a investigar mais profundamente em que condições sociais e econômicas os primeiros filmes eram produzidos. Seus estudos demonstram que as duas primeiras décadas do cinema foram marcadas pelo hibridismo, um período de rara inventividade, porém, indissociável das expressões culturais então vigentes, como a prestidigitação, a pantomima e os atos circenses. Não por acaso, aqueles primeiros filmes eram exibidos em feiras e intervalos de encenações burlescas, teatros de variedades ou vaudevilles. Eram peças curtas e heterogêneas, que formavam programas compostos e recompostos segundo as conveniências dos "exibidores".
Devemos a estes pesquisadores a noção de que o cinema dos primeiros tempos não pode ser considerado, dentro de uma perspectiva evolucionista, como um momento inferior ao modelo narrativo que nos acostumamos a apreciar. Este cânone do cinema clássico foi conseqüência de um processo de domesticação e enquadramento institucional, que resultou no espetáculo cinematográfico palatável às famílias e capaz de ser explorado em escala industrial. Trata-se de um outro modo de representação, mais orgânico e regulado, mas nem por isso melhor que aquele "cinema de atrações" dos primeiros tempos, marcado por gags, descontinuidades e interpelações diretas ao espectador. Em vez de julgá-lo "primitivo", aprendemos a apreciá-lo como uma lógica distinta de relação entre o filme e o espectador, uma diferente concepção entre a imagem e sua apresentação, e uma outra concepção de espaço e narrativa.
Esta mudança de perspectiva possibilitou uma revalorização dos filmes silenciosos. Ao mesmo tempo, o campo acadêmico proporcionou abordagens interdisciplinares que lançam nova luz sobre o cinema dos primeiros tempos. Fragmentos de filmes antigos continuam sendo descobertos. Novas técnicas de restauração e conservação foram desenvolvidas. E a multiplicidade de canais de televisão por assinatura exponencia a demanda por imagens do passado, para edição dos mais diversos tipos de programas. Como resultado de tudo isso, consolida-se a consciência de que as cinematecas exercem um papel fundamental na preservação de nosso patrimônio fílmico, repositório da memória de nossos costumes, indumentária, gestualidade e arquitetura. E, também, dos modos de representação característicos do cinema das origens.
Eventos como as
Giornate del Cinema Muto de Pordenone, na Itália, tornaram-se ponto de encontro de pesquisadores. Entre nós, a primeira edição da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, em 2007, mostrou que o interesse pelo cinema produzido cerca de um século atrás também não se restringe a um pequeno grupo de historiadores. Mais de cinco mil pessoas prestigiaram o evento. Tudo indica que este público voltará à Cinemateca Brasileira nesta segunda edição, com apetite redobrado.
É impossível reconstituir fielmente as condições em que aqueles filmes eram assistidos, mas sabemos que a falta de som mecanicamente sincronizado não significava exibição silenciosa. Ao contrário, havia uma babel sonora, composta de música ao vivo, ruídos, locução improvisada, gargalhadas. Na Jornada promovida pela Cinemateca Brasileira, o acompanhamento musical contemporâneo cria performances únicas, que não procuram reconstituir a atmosfera de uma época remota, mas nos proporcionam a oportunidade de uma reinterpretação criativa, que valoriza ainda mais a riqueza do cinema dito silencioso.
Em 1976, a Cinemateca Real da Bélgica pediu a 203 renomados críticos uma relação dos melhores filmes norte-americanos de todos os tempos. Entre os dez selecionados, oito haviam sido produzidos no período silencioso, entre eles Ouro e maldição/Greed (Erich von Stroheim, 1924), Aurora/Sunrise (F.W. Murnau, 1927), Nanook, o esquimó/Nannok of the north (Robert Flaherty, 1922) e A turba/The Crowd (King Vidor, 1928). É provável que uma encomenda semelhante, feita nos dias de hoje, não viesse a apresentar grande novidade. O cinema silencioso produziu obras notáveis, que precisam ser vistas e revistas. Não só os grandes clássicos, mas também as pepitas que foram recentemente localizadas e restauradas. Em parte, isso é o que nos possibilita a II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso.
Silvio Da-Rin
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