III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso cinemateca brasileira eva
 
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“CINEMA DO POVO” E OS ANARQUISTAS NO CINEMA

A cooperativa Cinéma du Peuple nasceu oficialmente no final de outubro de 1913, e reunia socialistas, libertários e sindicalistas. Antes disso, a imprensa libertária referiu-se ao empreendimento e, a 13 de setembro de 1913, Le Libértaire publica um artigo sobre ele.leia mais


A Jornada Brasileira de Cinema Silencioso tem a honra de receber a pesquisadora Isabelle Marinone, que realizará três conferências sobre cinema silencioso e anarquismo na França, assunto de seu doutorado. As conferências serão amplamente ilustradas com excertos fílmicos de diversas épocas e realizadores cinematográficos franceses.

Isabelle Marinone é historiadora, especialista em filmes silenciosos e documentários franceses. Professora e pesquisadora da Universidade Paris 3 – Sorbonne, pós-graduada em História e Estética do Cinema pela Universidade Paris 1 – Panthéon da Sorbonne, publicou vários trabalhos sobre filmes políticos, abordando o anarquismo e o cinema francês. Trabalha no Collegium de Lyon, onde pesquisa documentários silenciosos franceses sobre países estrangeiros.


A COMUNA A COMUNA (La Commune)
França, 1914, 35mm, preto e branco, 22min
cp: Cinéma du Peuple; d e r: Armand Guerra; e: Armand Guerra
Origem da cópia: Filme restaurado pela Cinemateca Francesa




A 28 de março de 1914, a cooperativa estreou seu trabalho mais notável: La Commune! Du 18 mars au 28 mars 1871, realizado pelo espanhol Armand Guerra, que atua como roteirista e ator. O nome verdadeiro de Guerra era José Estivalis Calvo, nascido em Valência (Espanha), a 4 de janeiro de 1886. Inicialmente, La Commune deveria ter duas partes; com a aproximação da guerra, apenas a primeira parte foi realizada. O filme trata de vários episódios, notadamente a revolução do 88º batalhão, a execução dos generais Thomas e Lecomte, a fuga de Adolphe Thiers em Versalhes e a proclamação da Comuna de Paris. As longas sequências que se passam no escritório de Thiers (Armand Guerra) se opõem às dinâmicas sequências exteriores, rodadas em cenários naturais. Se os cenários em telas pintadas são de boa fatura, os exteriores contribuem com uma leveza que falta às cenas de estúdio. Guerra filmou os exteriores no Pré Saint-Gervais, com meia centena de figurantes. Os planos apresentam restos das antigas fortificações de Paris. É possível que a encenação dos planos de interior – estáticos frente ao dinamismo dos planos em exterior – tenha sido voluntária, opondo, com isso, uma representação das autoridades rígidas e hieráticas à força da mobilização popular das ruas. A conclusão do filme é a sequência melhor realizada. Guerra encerra o filme com alguns segundos documentais que mostram os sobreviventes da Comuna reunidos à volta de seu estandarte, entre eles Zéphyrin Camelinat, Jean Allemane e Nathalie Lemel. O último plano mostra uma bandeirola, diante do muro dos confederados, com a inscrição “Viva a Comuna!”. Essa “reconstituição” possui várias vantagens. Primeiro, recordar ou ensinar ao público operário um episódio de sua história; depois, graças às descrições, explicar como deve se organizar para a luta. O dever de memória é acompanhado pela necessidade de compreender, e acaba por arrastar o espectador à aplicação concreta dos combates descritos na tela.


AS MISÉRIAS DA AGULHA (Les misères de l’aiguille)
França, 1914, 35mm, preto e branco, 13min
cp: Cinéma du Peuple; d: Raphäel Clamour; e: Jeanne Roques, Lina Clamour, Gaget, Michelet, Armand Guerra
Origem da cópia: Filme restaurado pela Cinemateca Francesa

Raphäel Clamour, ator e diretor artístico da cooperativa, procurava uma atriz para estrelar a primeira produção da Cinéma du Peuple, As misérias da agulha. O papel de Louise, costureira e tecelã que, devido à morte de seu marido, tenta suicidar-se, por razões econômicas, juntamente com seu filho, deveria emocionar. Entre as atrizes dos elencos dos teatros Châtelet e Odéon, Clamour reparou em uma jovem, Jeanne Roques, que mais tarde se tornaria conhecida pelo nome de Musidora, e que, em As misérias da agulha, faz sua primeira aparição no cinema. O tema deve ter agradado a ela, pois era bastante próximo de suas preocupações familiares: Jeanne Roques era filha de Marie Clémence, grande batalhadora da causa feminista. Lina Clamour, do Moulin Rouge, Gaget e Michelet, do Châtelet, e Armand Guerra, do Grande Teatro de Barcelona, também fizeram parte do elenco. É o primeiro filme da história do cinema francês que valoriza os operários e os convida a se organizar por si próprios.


O VELHO DOQUEIRO (Le Vieux docker)
França, 1914, 35mm, preto e branco, 5min
cp: Cinéma du Peuple; d: Armand Guerra; r: Yves-Marie Bidamant, Charles Marck; e: Armand Guerra
Origem da cópia: Filme em processo de restauração pela Cinemateca Francesa

Última produção da Cinéma du Peuple, Le Vieux docker descreve a vida difícil de um velho operário que, depois de trinta anos de trabalho e de leais serviços, é despedido. O filme representa um testemunho de solidariedade para com o anarquista Jules Durand, secretário dos trabalhadores do porto do Havre, preso a 15 de setembro de 1910, depois de uma briga em que um homem foi morto. Ele foi condenado à pena capital, mas como se revelou inocente, e a pena foi comutada para sete anos de reclusão. Depois disso, ele perde a razão e, no início de 1926, com 46 anos, é internado num hospital psiquiátrico. Seu advogado, René Coty, foi posteriormente presidente da República. O roteiro é de Yves-Marie Bidamant, chefe de estação no Havre, e Charles Marck, doqueiro na mesma cidade. Além de dirigir o filme, Armand Guerra interpretou o papel de Durand.


ASSASSINATO DO MINISTRO PLEHVE (GRÃO DUQUE SERGE) ASSASSINATO DO MINISTRO PLEHVE (GRÃO DUQUE SERGE)
Assassinat du ministre Plehve (grand duc Serge)
França, 1904, 35mm, preto e branco, 1min16
cp: Pathé; d: Lucien Nonguet
Origem da cópia: Arquivos Franceses do Filme/CNC


Reconstituição, nos estúdios da Pathé em Montreuil, do assassinato do ministro Plehve por um estudante chamado Sasanoff (ou Sasonoff) e que teve lugar em São Petersburgo, a 29 de julho de 1904.


A TERRORISTA A TERRORISTA (La Terroriste)
França, 1907, 35mm, tingido, 11min20
cp: Gaumont
Origem da cópia: Arquivos Franceses do Filme/CNC

Ficção. Reconstituição de um atentado cometido por uma anarquista russa. Um grupo de anarquistas fomenta o projeto de atentado contra o czar executado por uma mulher. O veículo em que se encontrava o czar explode. A criminosa é detida e conduzida à prisão. A viúva do czar, acompanhada por seus dois filhos, visita a anarquista que, arrependida, pede perdão. Condoída, a imperatriz toma seu lugar na cela, e a anarquista escapa da prisão vestindo o manto imperial. Ela chega ao local onde se reúne o grupo anarquista, uma discussão irrompe e uma bomba explode.


MANIFESTAÇÕES EM SOLIDARIEDADE A SACCO E VANZETTI
Manifestations en faveur de Sacco et Vanzetti
França, 1921, 35mm, preto e branco, 6min
d: Le Saint
Origem da cópia: Archives de la Planète Albert Kahn
Tentativa de manifestação em frente à Embaixada americana.


MANIFESTAÇÕES EM SOLIDARIEDADE A SACCO E VANZETTI
Manifestations en faveur de Sacco et Vanzetti
França, 1927, 35mm, preto e branco, 9min
d: Sauvageot
Origem da cópia: Archives de la Planète Albert Kahn
Manifestação num dia de domingo, 21 de outubro de 1927. Filme dividido em duas partes. A primeira se passa no bosque de Vincennes. A segunda, no Prado Saint Gervais.


siglas utilizadas