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CINEMATECA BRASILEIRA
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Janela para a América Latina

Ainda quase úmido dos banhos de revelação do laboratório L’Immagine Ritrovata, (Bolonha, Itália), onde foi restaurado e, há pouco mais de um mês, apresentado no prestigioso festival Il Cinema Ritrovato – organizado pela Cineteca della Comune di Bologna –, temos a enorme satisfação de apresentá-lo antes mesmo de sua reestreia em seu país de origem.

Wara Wara
Bolívia, 1930, 35mm, preto-e-branco, 69min, 24qps
p: Urania Film; d: José Maria Velasco Maidana; r: José Maria Velasco Maidana, Antonio Diaz Villamil a partir da peça La voz de la quena de Antonio Diaz Villamil; df: Mario Camacho, Jose Jimenez e José Maria Velasco Maidana; da: Arturo Borda, Martha de Velasco e Alicia Diaz Villamil; e: Juanita Taillansier, Martha de Velasco, Arturo Borda, Emmo Reyes, Jose Velasco, Guillermo Viscarra, Damaso Delgado, Raul Montalvo, Juan Capriles, Humberto Viscarra
Origem da cópia: Cinemateca Boliviana

O pacífico reino de Hatun Colla é invadido por um exército de conquistadores espanhóis que destroem povoados e matam o chefe Calicuma e sua esposa Nitaya. No caos reinante, o sumo sacerdote Huillac Huma consegue salvar a princesa Wara Wara e levá-la por passagens secretas até uma caverna nas montanhas. Neste esconderijo, Huillac Huma prepara por cinco anos um exército de nativos com o qual pretende vencer os espanhóis. A princesa Wara Wara é sua única esperança, pois ocupará o trono de Atahuallpa, assim que conquistarem a vitória. Um dia, o capitão Tristán de la Vega, à frente de uma pequena tropa de espanhóis, chega nas proximidades do esconderijo e raptam a princesa. O capitão Tristán quer defendê-la, mas é ferido na batalha que então se inicia. Para compensá-lo de sua nobre ação, Wara Wara leva o capitão à caverna e cuida de seus ferimentos. Apaixonam-se e sonham com uma vida juntos. Mas o sacerdote Huillac Huma e outros indígenas da tribo de Wara Wara preferem antes a princesa morta do que uma aliada dos invasores. O casal é abandonado para que morra de fome, mas eles se salvam e se dispõem a começar uma nova vida.



Tesouro inca
Stefano Lo Russo

A restauração dos negativos originais, preservados pela Fundação Cinemateca Boliviana, realizou-se no laboratório L’Immagine Ritrovata, em Bolonha, na Itália, em 2010. Os negativos foram restaurados digitalmente em 2K, duplicados em película e, ao final, tirou-se uma cópia positiva com som combinado. A trilha sonora de Cergio Prudêncio e a edição de Fernando Vargas foram recriadas de acordo com estudos de fontes primárias e secundárias.

“É a uma Bolívia de estrutura semi-feudal que chega o cinema. Filho pródigo da sociedade industrial, rejeitado pela classe dominante, foi embalado e colocado para dormir ao som das cantigas de ninar da divisão internacional do trabalho. Essas características socioeconômicas foram determinantes para o destino do cinema boliviano, renegado desde sempre e condenado a um permanente trabalho forçado diante da contínua indiferença do Estado” (Pedro Susz).

Pedro Susz, fundador da Cinemateca Boliviana, acredita que para se fazer cinema na Bolívia é preciso ter alma desbravadora. Assim também acreditava José Maria Velasco Maidana, músico profissional e artista multitalentoso, considerado um dos pioneiros do cinema dos anos de 1920, da era de ouro do cinema silencioso boliviano. Longe de poder ser considerada uma indústria estabelecida, o cinema boliviano era (e ainda é) entregue aos cuidados e às iniciativa de visionários como Pedro Sambarino, Arturo Posnanky e José Maria Velasco Maidana. Todos criadores de laboratórios cinematográficos que funcionavam de modo absolutamente artesanal na cidade de La Paz. Em 1925, Velasco Maidana finalizou seu primeiro longa-metragem, La Profecía del lago. O filme foi censurado e destruído pelas autoridades municipais, pois contava a história de amor entre uma dama da aristocracia e seu criado de origem indígena. Entre 1928 e 29, dirigiu Wara Wara, a história de um amor impossível entre uma princesa inca e um nobre conquistador espanhol. O filme mostra a conquista do Império Inca pelo exército de Pizarro e foi uma verdadeira superprodução. Em 1933, durante a Guerra de Chaco, Maidana trabalhava em seu último filme quando resolveu encerrar suas investidas no cinema. Retornou para a atividade que sempre esteve mais próxima do seu coração, a música. Em dezembro de 1938 foi convidado para apresentar em Berlim sua Orquestra Sinfônica, a Ameríndia. Alguns anos depois, fundou a Orquestra Sinfônica Nacional, mas sua inquietação artística, e talvez, sua amargura por ser mais reconhecido no exterior do que em seu próprio país, o fizeram sair da Bolívia. Imigrou para o México e depois para os Estados Unidos, onde conheceu a pintora Dorothy Hood, com quem viveu até o final de sua vida.

Em 1989, no ano de sua morte, foi encontrado na casa de sua família em La Paz um baú contendo inúmeros rolos de filmes em nitrato. Não havia traços de cópias positivas, e a maior parte do material era composta por negativos originais de câmera. Um exame preliminar mostrou que a maioria dos rolos era relativa ao filme Wara Wara. Graças ao Instituto Goethe de La Paz, uma parte desse material foi enviada a um laboratório alemão, que se responsabilizou por fazer uma cópia em película com o objetivo de recuperar o que fosse possível. Até 2001, na verdade, a “versão restaurada” de Wara Wara ressentia-se das partes que faltavam no filme, mas os anos seguintes, de pesquisa e investigação, lançaram luzes importantes sobre a fase silenciosa do cinema boliviano. Apenas em 2009, com a intenção de restaurar o filme a partir de seu negativo original, foi possível recuperar os 150 metros de película, correspondentes à parte final da obra. A complexa operação de reconstrução da narrativa foi baseada em fontes primárias – o próprio negativo que foi ordenado não segundo uma narrativa linear, mas em blocos, de acordo com diferente período de colorizações – e em fontes secundárias, como a peça de Diaz Villamil, recortes de jornais de época, documentos de família e entrevistas com atores e colaboradores do filme. Sabemos também que Cesar Carces B. foi o responsável por “sincronizar” as projeções do filme com a execução ao vivo de música étnica. Foi preciso um período de vinte anos para trazer de novo à vida essa obra lendária do cinema boliviano. Ainda estão em andamento pesquisas para a reconstrução das viragens e o acompanhamento musical originais. Mas também essa atividade poderá ser trabalho para pioneiros.