III Jornada Brasileira de Cinema Silencioso cinemateca brasileira eva
 
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JANELA PARA A AMÉRICA LATINA

O HÚSSAR DA MORTE (El Húsar de la muerte)
Chile, 1925, 35mm, preto e branco, 65min

eva nil cem anos sem filmes cp: Andes Films; p: Alfredo Wolnitsky; d: Pedro Sienna; r: Pedro Sienna e Hugo Silva, baseado na biografia de Manuel Rodríguez; df: Gustavo Bussenius; e: Pedro Sienna (Manuel Rodríguez), María de Hanning, Dolores Anziani (Charito), Hugo Silva (Jefe de hogar – Patriota), Piet Van Ravenstein (Enoc Vidal el Grande), Federico Geimza, Luis Baeza, Clara Werther (Carmen de Aguirre), Octavio Soto, Emilia Sierra, Ángel Díaz, Víctor Véjar, Guillermo Barrientos (El Huacho Pelao)
Origem da cópia: Cinemateca Nacional do Chile

Após o desastre de Rancagua, em 1814, o legendário patriota Manuel Rodríguez (1785-1818) luta pela independência do Chile contra os realistas dirigidos por Vicente San Bruno a serviço dos opressores espanhóis. Ele vai a Mendonza traçar planos com o general San Martín e, ao regressar, organiza a ação guerrilheira, roubando cavalos, recrutando e armando camponeses. Depois de diversas peripécias, Rodríguez é traído e assassinado numa emboscada. Seus amigos o enterram jurando vingança.

siglas utilizadas

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El Húsar de la muerte / O Hússar da morte é o único filme de ficção chileno da época silenciosa que está em condições materiais de ser exibido. Assombra os espectadores por sua qualidade e seu frescor, pela força que se desprende da interpretação dos atores, pela coerência da narração na qual não existe praticamente um enredo estruturado. O eixo é a quase lendária personagem histórica de Manuel Rodríguez, caracterizado vigorosa e sobriamente por Pedro Sienna, que lhe confere a estatura e a vitalidade de um herói. Emoção e poesia brotam de algumas cenas impregnadas de pequenos detalhes, nas quais Sienna – também diretor – aproveita com habilidade os recursos da linguagem cinematográfica.

Estas qualidades fazem de O Hússar da morte uma fita muito superior a outras produções chilenas, inclusive mais recentes. As opiniões da época estão sintetizadas nos comentários do crítico da revista Zig-zag chamado EX: “não tem propriamente enredo” – aponta – “o que lhe dá unidade é Manuel Rodríguez, ao redor do qual se sucedem as peripécias, as aventuras rápidas, uma série de emboscadas, equívocos e outras cenas que mantêm o interesse. (…) O autor usou muito bem o recurso de materializar os relatos e não confiar tudo aos letreiros. (…) Há muitas concessões ao público, mas, em resumo, dá a impressão de um argumento pessoal desenvolvido com inteligência. A princípio, a imagem de Pedro Sienna choca um pouco, mas, aos poucos, o sentimos melhor no papel, e acaba por emocionar” (19 de novembro de 1925).

Pedro Sienna acumula roteiro, direção e interpretação. Ele vinha de uma carreira como ator iniciada em triunfo ao estrelar El Hombre de acero / O Homem de aço (1917). Atua em mais três filmes, todos dirigidos por Arturo Mario: Todo por la patria / Tudo pela pátria (1918), La avenida de las acacias / A Avenida das acácias (1918) e Manuel Rodríguez (1920). Neste último, interpreta pela primeira vez o histórico personagem, que voltaria a compor em El Húsar de la muerte. Nos anos seguintes, Sienna atua somente nos cinco filmes que dirige, encerrando sua trajetória cinematográfica: Los Payasos se van / Os Palhaços se vão (1921), El empuje de una raza / O Ímpeto de uma raça (1922), Un Grito en el mar / Um Grito no mar (1924), El Húsar de la muerte (1925) e La Última trasnochada / A Última vigília (1926).

A obra em questão pertence ao acervo da Universidade do Chile. Desde 1994, o Departamento de Programas Culturais da Divisão de Cultura preocupou-se em resgatar a película talvez mais importante que já se filmou no Chile. O filme, cheio de peripécias e de engenhosos efeitos especiais, conserva ainda alguns intertítulos e subtítulos originais. Para restaurar o fio narrativo, foram inseridas algumas cartelas, com textos curtos, que ajudam o espectador a seguir a trama. A fita foi um sucesso de público na época de seu lançamento, o que motivou seu relançamento com uma trilha musical, em 1941. Em 1962, o documentarista Sérgio Bravo – com a participação do próprio Pedro Sienna – realizou uma restauração que tornou possível salvaguardar o filme e torná-lo conhecido inclusive fora do Chile. Apesar das duplicações de 1941 e de 1962, o filme corria sério perigo de converter-se em outra obra irrecuperável da cinematografia chilena. A restauração de El Hússar de la muerte, realizada em 1995, se insere no Programa de Preservação e Difusão do Patrimônio Fílmico Chileno desenvolvido desde 1991 pelo Departamento de Programas Culturais da Divisão de Cultura. O projeto contou com a especial colaboração da Organização dos Estados Americanos – OEA.

A maioria das fontes afirma que El Húsar de la muerte é a única película chilena silenciosa sobrevivente. No entanto, descobertas recentes localizaram dois outros filmes do período: Canta y no llores, corazón / Canta e não chore, coração (1925, Juan Pérez Berrocal) e El Leopardo / O Leopardo (1926, Alfredo Llorente). A produção silenciosa do país é impressionante. Segundo a Filmografía del cine chileno, de Ernesto Muñoz e Darío Burotto (Santiago, Museo de Arte Contemporáneo, 1998), foram produzidos e lançados 83 títulos de ficção entre 1916 e 1934. O auge desta produção foi entre 1923 e 1927, período que coincide com os surtos regionais de ficção que se verificam no Brasil.