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Curso Uma História do Cinema na Cinemateca Brasileira

11 de outubro a 06 de dezembro de 2011 

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CURSO LIVRE em parceria com o Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

Aulas às terças-feiras, às 19h00.

As inscrições são GRATUITAS e devem ser feitas pessoalmente na bilheteria da Sala Cinemateca Petrobras a partir do dia 04 de outubro, de terça a domingo, das 15h00 às 21h00, mediante a apresentação de RG e CPF ou passaporte. São 100 vagas disponíveis, preenchidas de acordo com a ordem de inscrição.

RUBENS MACHADO JR., coordenador do curso, é formado em arquitetura e urbanismo pela USP. Livre Docente em Teoria e História do Cinema na ECA-USP. Estagiou como pesquisador na Universidade de Paris III (1991-1997) e fez Pós-Doutorado no IA-Unicamp (1998-1999). Integra editorias de várias revistas, como Cine-Olho (RJ-SP, 1975-1980), Infos Brésil (Paris, 1992-2007), Praga (SP, 1997-2000), Sinopse (SP, 1999-2006), Significação (SP, 2006-) e Rebeca (2011-). Publicou artigos em periódicos brasileiros como Novos Estudos Cebrap, Alceu, Cinemais, Educação & Sociedade, PósFAU-USP, Trópico e Folha de S. Paulo; na Itália, Oèdipus e Close-Up: Storie della visione; na França, Cahiers du Cinéma, Episodic e L'Armateur. Pertence ao Conselho do Paço das Artes e do MIS-SP. Atualmente pesquisa a história do cinema experimental e de vanguarda.

 

Módulo 28

O CENTRO PELAS MARGENS:
RUMORES E INQUIETAÇÕES DAS METRÓPOLES CINEMATOGRÁFICAS BRASILEIRAS

Num país como o Brasil, já periférico, o quê restaria aos seus pólos de maior concentração, além da sina persistente de ser um simulacro de conhecidas metrópoles do primeiro mundo? O brilho das exorbitâncias locais, com as suas diferenças mais perturbadoras?

Periferia, favela, subúrbio, arrabalde, franjas urbanas, zonas de habitação precária – ausências e eclipses formidáveis de um centro urbano iluminador que não pode a tudo alcançar. Centro, por sua vez, acometido pelas sombras que gerou, penetrado de sua própria relevância assustadora, compenetrado de suas limitações fatídicas.

O centro de uma metrópole traria a presença da História. O tradicional mais emblemático da cidade é de início visto pelo olhar moderno mais inovador num jogo de certa indiferença desdenhosa com o passado. Essa espécie de convívio algo paradoxal, cheio de nonchalance, só o primeiro modernismo do cinema carregaria de verdade, como num desdém um tanto auto-afirmativo de sua novidade bombástica face à velha ordem. Depois, o que veremos é um avanço do passado e da história sobre a ambição moderna dos novos cinemas, transformando-os em aliados de sua estética, gerando uma modernidade maturada, compreendida como propriamente cinematográfica.

Margens & Centros, jogo fundador e configuração indissociável, tanto da cidade em nosso tempo como do cinema moderno: interação contraditória de precariedade e cidadania, violências e civilidades. Isso parece persistir se nuançamos o jogo centro-margens com desdobramentos mais complexos, divisando em lugar de margens, a semiperiferias e periferias, e em vez de centros, a núcleos orgânicos (Arrighi). Continuamos fadados a uma dinâmica de compreensão difícil e desafiadora.

Amplia-se na história, ou não, uma (des)politização da Polis? Do cinema? Veremos espaços que se revelam desconformes aos corpos. Disseminam-se no filme as possibilidades daquilo que não aparece vir a determinar o que aparece, do espaço off como estruturante do espaço in (Burch). Intrínsecas contradições de classe, de condição e de ponto de vista. Arranjos de tensão interrogativa, que na história do cinema nos jogará então, pelo menos desde a metade do Século XX, de desdobramentos do neo-realismo italiano, para as sucessivas vagas na modernidade fílmica, não francesa como internacional.

O cinéfilo brasileiro não deixará de se lembrar aqui dos marcantes contrapontos paulistanos que nos levam do São Paulo Sociedade Anônima (1965), de Luiz Sérgio Person, ao filme de Ozualdo Candeias, A Margem (1967), prefigurando as reverberações modernas de centro-periferia que acabaram por fazer vingar um determinado Cinema Marginal implodindo, mas também radicalizando, o Cinema Novo.

Metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Salvador implicam sempre centros obscurecidos pelas fissuras e pelas sombras que neles crescem. As várzeas do Rio Tietê, os últimos barracos do morro carioca, esquinas perdidas de incontáveis Contagem, ruínas da mítica Baixa do Sapateiro, precário habitar de centros gangrenados. E as regressões paulistanas a Santos, São Vicente, Itanhaém, ou exílios incrustados nas avenidas, vinculações a remotos sítios de origem, mesmo que pretensamente em pleno Paraguai ou no Parque São Jorge; bairros industriais ou seu arremedo inespecífico?

Espaços concomitantes de exclusão e violência, desenganos e procuras de bem-estar, urbanidade, buscas de evasão e consolo, chegando à alienação e à caduquice. Vivências imaginárias e reais, determinadíssimas e ao léu. Caducidades, dramas e expectativas serão tornados emergenciais.

Rubens Machado Jr.

CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207
próximo ao Metrô Vila Mariana
Outras informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)
www.cinemateca.gov.br
ENTRADA FRANCA
 
PROGRAMAÇÃO:
 
11.10 | TERÇA
 
SALA CINEMATECA BNDES
19h00
 
Avenida Paulista, de Edson Barrus
São Paulo, 2005, vídeo digital, cor, 2’ | Exibição em DVD
Passeio pela Avenida Paulista que se orienta pela diretriz de seu eixo de circulação automobilística, submetendo pedestres, placas publicitárias e marcos históricos da cidade a epifenômenos discretos de um movimento elementar, contínuo e impávido.
 
São Paulo Sociedade Anônima, de Luiz Sérgio Person
São Paulo, 1965, 35mm, pb, 111’
Walmor Chagas, Eva Wilma, Otelo Zeloni, Darlene Glória, Ana Esmeralda
Grande painel sobre o impacto das transformações sociais e econômicas de São Paulo durante o surto de implantação da indústria automobilística, sob a visão de um sujeito em ascensão: um funcionário que se torna o braço direito de um empresário do setor automobilístico. Progredir socialmente se entrelaça com suas três escolhas amorosas. Ele entra em crise e pensa em abandonar  tudo.
 
18.10 | TERÇA
 
SALA CINEMATECA PETROBRAS
19h00
 
A Margem, de Ozualdo Candeias
São Paulo, 1967, 35mm, pb, 96’ | Exibição em Beta Digital
Mário Benvenutti, Valéria Vidal, Bentinho, Lucy Rangel
Às margens do rio Tietê, histórias de amor se desenrolam: em meio à miséria e a luta pela sobrevivência, dois casais que a sociedade ignora tentam encontrar-se através do sentimento. Entre pequenos golpes pela sobrevivência, os personagens evoluem por entre encontros nas franjas da cidade, nos baixos da várzea, não resistindo à violência de um submundo em processo de inapelável deterioração.
 
01.11 | TERÇA
 
SALA CINEMATECA PETROBRAS
19h00
 
Sem essa, aranha, de Rogério Sganzerla
Rio de Janeiro, 1970, 16mm, pb, 102’ | Exibição em Beta Digital
Helena Ignez, Jorge Loredo, Maria Gladys, Luiz Gonzaga
Aranha, pretensamente o último representante da burguesia nacional, mas parecendo um malandro decadente, vive dividido entre três mulheres: uma loira, uma morena e outra negra. Interpretado por Jorge Loredo, conhecido por suas aparições na televisão como Bonitinho, faz uma caricatura de nossas elites, iludido, cafona e colonizado. Espécie de chanchada realista, com números musicais de Moreira da Silva e Luiz Gonzaga, o filme inspirou a cançãoQualquer coisa”, de Caetano Veloso, que repete o título da obra em seu refrão. Um dos mais marcantes filmes da produtora cinematográfica independente Belair, fundada por Sganzerla e Julio Bressane.
 
22.11 | TERÇA
 
SALA CINEMATECA PETROBRAS
19h00
 
Migrantes, de João Batista de Andrade
São Paulo, 1972, 16mm, pb, 7’
Reportagem lapidar sobre a situação miserável dos retirantes nordestinos em São Paulo, vistos como marginais por muitos paulistanos. Numa oportunidade rara, o documentarista coloca frente a frente um migrante, que mora com a família sob um viaduto, e um paulistano típico, que o aconselha a voltar para o campo. Prêmio de Melhor Filme em 16mm na Jornada Nordestina de Curta-Metragem em 1973. Cópia restaurada a partir dos negativos originais de imagem e som.
 
Gaviões, de André Klotzel
São Paulo, 1981, 16mm, cor, 25’ | Exibição em Beta Digital
Regina Rheda, Genézio de Carvalho, Gilberto Moura
Misturando documentário e ficção, este curta-metragem apresenta uma crônica do cotidiano da maior torcida organizada do Corinthians, um dos times de futebol mais tradicionais e admirados do país. Filmado no seio da torcida corintiana, o filme se configura, por vezes, como um ensaio visual sobre os valores estéticos do branco e preto (cores do time).
 
Nada levarei quando morrer, aqueles que mim deve, cobrarei no inferno, de Miguel Rio Branco
Bahia, 1981, 16mm, cor, 20’ | Exibição em Beta Digital
Ensaio visual sobre o bairro do Maciel, na cidade de Salvador, Bahia. Curta-metragem singular, que retrata as dificuldades da vida urbana na deteriorada região da Baixa do Sapateiro soteropolitana, entre o distante progresso e a miséria cotidiana, a tensão da violência e o aceno da cidadania remota, a exclusão sistemática e a pulsação popular.
 
29.11 | TERÇA
 
SALA CINEMATECA PETROBRAS
19h00
 
Qualquer um, de Rita Buzzar
São Paulo, 1983, 16mm, cor/pb, 16’
Gilberto Moura, Nice Marinelli, Alberto Pereira
A partir de acontecimento real ocorrido em São Paulo, em abril de 1983, quando manifestações contra o desemprego levaram a confrontos com a polícia e saques a inúmeras lojas do centro da cidade, a trama acompanha a trajetória de um migrante que chega à metrópole em busca de emprego. Utilizando material de arquivo referente ao governo Juscelino Kubitschek e à industrialização acelerada daquele período, o filme estabelece relações entre o milagre brasileiro, o desemprego e os saques.
 
Superoutro, de Edgard Navarro
Bahia, 1989, 35mm, cor, 48’ | Exibição em Beta Digital
Bertrand Duarte, Inaldo Santana, Fernando Fulco, Kal Santos
Média-metragem de ficção sobre um louco de rua, espécie de Dom Quixote do Terceiro Mundo, que tenta se libertar da miséria que o assedia através da sua imaginação alucinada e acaba por subverter a própria lei da gravidade. Rodado na cidade de Salvador, Bahia, sem uma linha narrativa definida, o filme se apropria das referências da indústria cultural para satirizá-las e construir uma obra critica e inovadora. A inusitada trilha sonora reúne Villa-Lobos, Arrigo Barnabé, Nino Rota, Carlos Gomes, Caetano Veloso, Fausto Fawcett, o Hino da Independência do Brasil e até a Internacional Socialista.
 
06.12 | TERÇA
 
SALA CINEMATECA PETROBRAS
19h00
 
Fantasmas, de André Novais Oliveira
Minas Gerais, 2010, vídeo digital, cor, 11’ | Exibição em DVD
Gabriel Martins, Maurílio Martins, Gabriela Monteiro
Uma câmera parada de frente para um posto de gasolina capta a conversa de dois personagens que não aparecem em quadro. Entre banalidades sobre um jogo de futebol organizado por amigos, a beleza da irmã de um e a insistente cobrança sofrida pelo outro, o movimento do estabelecimento comercial é acompanhado por vários minutos. Uma tensão entre o visível e o invisível se estabelece na iminência de que algo venha a acontecer. Vencedor do prêmio de Melhor Filme Experimental no Festival Internacional de Curtas do Rio de JaneiroCurta Cinema 2011.
 
Anjos do arrabalde, de Carlos Reichenbach
São Paulo, 1986, 35mm, cor, 104’
Betty Faria, Clarisse Abujamra, Irene Stefania, Vanessa Alves
Drama realista sobre o cotidiano de três professoras e uma manicure que tentam sobreviver dignamente em confronto com o hostil ambiente de um bairro da periferia de São Paulo. Carmo abandona o magistério por pressão do marido machista; Dália sustenta um irmão viciado em drogas e é vítima de preconceito por conta de sua vida sexual e pelo romance com um homem casado; Rosa é uma mulher solitária, desiludida com a profissão, que mantém uma relação extraconjugal com um colega de trabalho; Aninha, a manicure, é vítima de uma tragédia que transformará estas vidas tão comuns em manchete de jornais sensacionalistas.

 

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Cinemateca Brasileira
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