ínicio
Para todos nós, da Cinemateca Brasileira, a partida de Gustavo Dahl representa um vazio que jamais será preenchido. E que não queremos que seja preenchido: tanto em nosso trabalho cotidiano como nas crenças compartilhadas para cumprir a missão da Cinemateca, cultivamos a memória. As ausências fazem, assim, parte da nossa história, e procuramos mantê-las vivas.
É com esse espírito que, como primeira homenagem da Cinemateca ao saudoso colaborador e Presidente Gustavo Dahl, compartilhamos um pequeno texto biográfico e em seguida reproduzimos algumas das idéias que compunham a figura firme e afetiva, séria e espirituosa, inteligente e culta com a qual convivíamos intensamente até hoje.
Gustavo Dahl pode, sem dúvida, ser considerado um dos grandes pensadores do cinema brasileiro. Seus textos e discursos são marcados pela defesa de um projeto político e sobretudo econômico para o audiovisual, pelo direito a um cinema nacional.
Nesse sentido, dá continuidade ao pensamento de Paulo Emilio Salles Gomes sobre o cinema brasileiro e sua trajetória no subdesenvolvimento, marcada pela mediocridade da colonização e posteriormente, como defendeu Dahl, pela mediocridade do imperialismo. “As coisas mudam mas não mudam”, diagnosticava em “Uma situação Imperial”, artigo publicado no Jornal do Brasil em 1998 em que retomava a discussão sobre a condição periférica de nosso cinema, iniciada por Paulo Emilio no texto “Uma situação colonial”, apresentado na I Convenção Nacional da Crítica Cinematográfica, em 1960.
Segundo ele, era preciso dotar o cinema brasileiro de condições de sobrevivência frente à dominação do cinema norte-americano. Faziam-se necessárias a ordenação e potencialização da oferta de filmes nacionais no mercado interno, através da distribuição; a ocupação de parcela razoável das salas de exibição; a participação justa e não vil no vídeo, na televisão por assinatura e aberta, dominada pela produção americana; a difusão e penetração no mercado externo; a preparação para as novas modalidades de mercado criadas pela evolução tecnológica; e um sistema de informações e transparência, possibilitando o conhecimento e o controle da indústria cinematográfica. Em síntese, seu projeto para a indústria cinematográfica estava fundamentado no tripé difusão, informação e produção ou cultura, controle e fomento. Essa tríade marcaria todo seu pensamento, bem como sua atuação nas instituições de cinema do país. Sem essas condições, o cinema nacional seria incapaz de superar sua paralisia cultural. Ao longo das duas últimas décadas, acrescentou àquele tripé a preservação, fechando com isso um sistema que comporta todas as etapas do ciclo de produção cinematográfica e audiovisual. Dizia que a preservação deve ser vista como a infra-estrutura sem a qual não se estabelecem as condições mínimas para a valorização da memória nacional.
Sua produção cinematográfica também buscou refletir as contradições da cultura brasileira. Sua geração, que inclui principalmente realizadores do Cinema Novo, mostrou através das imagens a miséria social e política do conservadorismo da sociedade brasileira, ou o que ele chamou de “a grande angústia do desencontro nacional”. Era uma geração que mesclava “angústia pessoal com consciência social; seriedade e sedução; a sensualidade preguiçosa com a capacidade de realizar”.
Leia também
Adaptação de texto autobiográfico a propósito de sua produção literária
Gustavo Dahl – crítico de cinema

Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino - 04021-070 - São Paulo
(11) 3512-6111 / contato@cinemateca.org.br