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Adaptação de texto autobiográfico a propósito de sua produção literária

Gustavo Dahl começou a publicar artigos sobre cinema e cinema brasileiro, no ano de 1958, no Suplemento Literário d’O Estado de São Paulo, convidado por Paulo Emilio Salles Gomes, na coluna em que este escrevia semanalmente. A colaboração estendeu-se por alguns anos, primeiramente no período em que trabalhou na Cinemateca Brasileira (l958/1960) e depois durante sua estada na Europa (l960/1964) como bolsista do Governo Italiano e da Unesco, nos cursos de Direção do Centro Experimental de Cinematografia (Roma) e de Cinema Etnográfico (Museu do Homem, Paris), ministrado por Jean Rouch.

 
Tendo publicado, em 1960, o primeiro ensaio escrito no país sobre a Nouvelle Vague, demonstrou interesse pelos movimentos de renovação do cinema, característicos daquela década. Assim sendo, começou analisando a obra de Walter Hugo Khouri e em seguida o movimento do Cinema Novo. A intensa interação que se dava na época entre a geração que ansiava por uma renovação do cinema brasileiro o aproximou de Glauber Rocha, que publicava no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o SDJB. O diálogo intelectual estabelecido pela imprensa logo se transformou numa teorização comum sobre o movimento do Cinema Novo.
 
Estudando na Europa, acompanhou a evolução do cinema brasileiro, através de intensa correspondência com Paulo Emilio e Jean-Claude Bernardet e se relacionou com o jovem cinema italiano da época, Bernardo Bertolucci, Marco Bellochio e outros. E também com a moderna crítica italiana, Adriano Aprá, Enzo Ungari, que girava em torno da revista Cinema e Film. Nos festivais de cinema latino-americano, realizados no início dos anos 60, na Riviera Ligure, por Gianni Amico, conheceu Louis Marcorelles e por seu intermédio, os jovens dos Cahiers du Cinéma, revista que na época tinha importância mundial, dedicada à descoberta e defesa de novos cineastas e novas cinematografias. E com a qual veio a colaborar no trabalho de relacionamento com o movimento do Cinema Novo e com textos eventuais, dos quais o mais significativo foi a tradução francesa do artigo “Deus e o Diabo na Idade da Terra em Transe”, publicada por ocasião da morte de Glauber Rocha, anteriormente publicado no Brasil, com grande repercussão, durante o lançamento do filme Idade da Terra.

Voltando ao Brasil, em 1964, aproximou-se da revista Civilização Brasileira, que reunia intelectuais num movimento de resistência à ditadura militar, convidado por Nelson Werneck Sodré, seu diretor, e Alex Vianny, que respondia pela edição da parte cinematográfica. Nela publicou, em 1965, “O Cinema Novo e Seu Público”, ensaio inicialmente concebido como um estudo estratégico sobre o cinema brasileiro, encomendado pelo poeta e industrial Augusto Frederico Schmidt, que intencionava investir na área. E participou dos debates e mesas-redondas sobre cinema e cultura em geral, promovidos pela revista.

Tendo então prosseguido uma carreira de documentarista e montador, não deixou de estar presente no debate público de idéias sobre o cinema brasileiro, mantendo a colaboração com jornais como O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, Correio Braziliense. Na década de 1970, depois de ter realizado os filmes O Bravo Guerreiro (1968) e Uirá (1972), colaborou como crítico nos semanários Opinião e Movimento, precursores da imprensa alternativa, de resistência ao regime militar. Sua atividade como diretor não impediu a participação na formulação e atuação política dentro do cinema brasileiro, que terminou levando-o a aceitar o convite de Roberto Farias, em 1975, diretor-geral da Embrafilme, para assumir a área de distribuição da empresa.

Deu então uma guinada em seus interesses teóricos, generalistas, de investigação de linguagem, passando a direcioná-los para a economia cinematográfica e sobretudo para a presença e evolução do filme brasileiro no mercado. Data desta época o artigo “Mercado é Cultura” que pioneiramente colocava a rede de difusão constituída pela exibição cinematográfica como um meio efetivo de comunicação social, dentro do qual deveria inserir-se, como fator de afirmação da identidade nacional, o cinema brasileiro, mais além do velho dilema “arte” ou “indústria”. No final dos anos 1970, a afirmação no mercado exibidor da distribuidora da Embrafilme, que chegou a ser a segunda do país exclusivamente com filmes brasileiros, abriu espaço para um debate expresso em jornais e revistas de dimensão nacional, como a revista Veja, onde textos e entrevistas polemizavam e defendiam esta posição. A continuidade deste trabalho dar-se-ia a partir de 1985, em que ocupando a posição de presidente do Conselho Nacional de Cinema, continuou a debater a relação entre Estado, cinema brasileiro e mercado. Bem como o aparecimento de novos segmentos de atividade econômica criados pela evolução tecnológica como o vídeo doméstico.

Voltando à produção cinematográfica para realizar o filme Tensão no Rio (1987), envolveu-se em seguida com a campanha presidencial de 1989 e publicou artigos incisivos sobre a política cultural do futuro governo. Depois de alguns anos de retiro e introspecção, vendo começar o processo de crítica pública ao modelo de incentivos baseado na renúncia fiscal publicou, em 1998, uma série de artigos na página de Opinião, do Jornal do Brasil. Atacava principalmente a falta de visão sistêmica de um fomento econômico que se voltava exclusivamente para a produção, desconsiderando outros elos da cadeia econômica, como a distribuição e a exibição. A série de artigos repercutiu no debate que estava em pleno curso, desaguando na proposta de criação de uma Secretaria Nacional de Política Audiovisual, ligada à Casa Civil da Presidência da República. No mesmo ano, participou da organização, em Brasília, do ciclo de debates “Cinema Brasileiro: Estado ou Mercado?”, que daria origem ao III Congresso Brasileiro de Cinema, ocorrido em Porto Alegre (junho de 2000), do qual foi eleito presidente. Toda esta atividade foi acompanhada pela produção de textos, intervenções, discursos, que iam construindo uma proposta de política pública para o cinema e o audiovisual brasileiro.

No mesmo ano, a realização do Fórum de Competitividade da Indústria Cinematográfica, no Ministério do Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio no qual foi co-relator, bem como a criação do Grupo de Desenvolvimento da Indústria do Cinema – GEDIC, na Presidência da República, em que foi primeiramente relator da contribuição levada a efeito pelos membros do grupo da sociedade civil e depois responsável pela coordenação do relatório final, levaram-no a uma grande produção intelectual, que ficou registrada nos documentos conclusivos produzidos por ambos os grupos.

A partir desta presença institucional, política e conceitual, veio a se designado diretor-presidente da Agencia Nacional do Cinema – Ancine, implantando-a no período que vai de 2001 a 2006. Escreveu numerosos textos ligados a questões estratégicas e gerenciais do órgão, sem perder, no entanto, o sentido de sua contextualização dentro da política audiovisual do país, interna e internacionalmente.

Cumprido seu mandato na Ancine, foi eleito presidente do Conselho da Cinemateca Brasileira, primeira instituição cinematográfica em que colaborou em sua carreira. Tendo sempre mantido seu interesse na atividade de preservação, dá-lhe um novo enfoque, estabelecendo-a como o ultimo elo da cadeia econômica cinematográfica e entendendo o material preservado como conteúdo que gera conteúdo e que pode possibilitar uma reinterpretação audiovisual do país. Sem perder de vista o geral, participou também como expert em política cultural e audiovisual em audiências públicas da Subcomissão de Cinema, Teatro e Comunicação Social, da Comissão de Educação do Senado Federal, em que foi discutida a questão do conteúdo nacional e sua produção. Defendia posições que sustentassem, sem prejuízo para os interesses nacionais, uma visão de abertura para o mundo, sobretudo aquele ibero-americano, em função de uma política de afirmação da língua portuguesa associada ao espanhol, exprimindo seu compromisso com o futuro geopolítico do país. Interessado também nas questões de convergência tecnológica e da internet como universo midiático, vinha mantendo pesquisas sobre o tema, com alguma produção teórica inicial.

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