ínicio
CINEMA MARGINAL BRASILEIRO
05 de junho a 13 de dezembro de 2009
A Cinemateca Brasileira, em parceria com a Heco Produções, apresenta em outubro mais dois programas da ampla retrospectiva do assim chamado CINEMA MARGINAL BRASILEIRO, sempre em sessões às sextas-feiras, às 21h00, com reprises aos domingos, às 17h00. Com curadoria de Eugênio Puppo, a programação de novembro destaca o delirante Orgia, ou o homem que deu cria, de João Silvério Trevisan, e dedica um programa inteiro ao cineasta paulistano Carlos Reichenbach, no qual serão exibidos dois de seus curtas e um longa-metragem.
Orgia, ou o homem que deu cria por Guiomar Ramos
“Orgia é puro carnaval tropicalista. Não tem começo, meio ou fim. Vemos um grupo, que vai se juntando ao acaso, com a intenção comum de achar o lugar onde se encontra o Brasil. ‘O país está na cidade?’ – ouve-se alguém perguntar. O nonsense da narrativa, os personagens alegóricos, o longo trajeto que acaba por levá-los a um cemitério, tudo se fixa na inversão carnavalesca de tipos conhecidos do cinema brasileiro: o camponês mata o pai enlaçando-o como um animal, o caminhoneiro se livra de um pervertido sexual e cai no mundo, a baiana é um travesti mulato que declama trechos de Oswald de Andrade, o pai-de-santo anda de cadeira de rodas segurando a taça da Copa de 70, o intelectual fala uma língua incompreensível e se enforca, o padre e a freira rezam a primeira missa do Brasil, o cangaceiro está grávido e dá à luz em meio às tumbas de um cemitério, os índios cometem antropofagia.
Sob a câmera frenética de Carlos Reichenbach, essas figuras desfilam por um mundo onde o desespero é folia, é experiência lisérgica e homoerótica, com direito a marchinhas típicas povoadas pelos urros, gemidos e murmúrios dos corpos que se arrastam pela terra em busca de transformação. Hoje, era do realismo fake da televisão, Orgia causa impacto ao trabalhar com um tipo de representação alegórica e gutural, conseguindo dar conta de traduzir o Brasil.”
Guiomar Ramos
Lilian M: relatório confidencial por Arthur Autran
“Lilian M: relatório confidencial possui uma narrativa fragmentada no melhor estilo do cinema moderno. A narrativa articula-se a partir do depoimento concedido pela personagem-título, em que ela rememora sua vida e seus amantes: a saída do campo quando abandona o marido e os filhos acom-panhando um caixeiro-viajante, o empresário rico que lhe dá um apartamento, o sádico industrial alemão, o grileiro falastrão, o pequeno burocrata repressor e reprimido etc. A personagem deixa a sua apatia inicial construindo uma nova identidade em todos os sentidos; dados significativos nesse processo são a mudança de nome, de Maria para Lilian, e a sua progressiva liberação sexual. Ocorre que o tom do filme não exalta nem condena Lilian, buscando tão-somente mostrar as coisas e não fazer um julgamento sobre a personagem. Há algumas opções estéticas de grande interesse, por exemplo: os envolventes travellings que acompanham a separação de Lilian do burocrata Gonçalves, ou os movimentos semicirculares muito compostos quando o industrial alemão está próximo à piscina e admira um revólver. Por vezes são comentários sobre a linguagem cinematográfica, como na repetição do plano do caixeiro-viajante morrendo, da primeira vez com uma música grandiloqüente, que torna a situação grave, e da segunda apenas com o personagem balbuciando suas costumeiras frases feitas, levando a situação para o ridículo. Mesmo no enquadramento em contre-plongée
Deve-se destacar ainda a criatividade do trabalho de som. As músicas, por exemplo, pontuam os diferentes gêneros cinemato-gráficos citados: policial, român-tico ou melodrama. Ademais, há brincadeiras sonoras inteligentes, como a apresentação do perso-nagem Vivaldo Lobo, o grileiro de Jales, feita por uma locução em off, que possui, descobrimos logo depois, a mesma voz do per-sonagem. Nos créditos iniciais de O bandido da luz vermelha pode-se ler ‘Um filme de cinema de Rogério Sganzerla’. A expressão ‘filme de cinema’, aparentemente redundante, define com perfeição as obras que expressam grande amor por essa arte e que por isso nos fazem amá-las de forma mais intensa. Lilian M: relatório confidencial certamente faz parte desse seleto grupo.”
Arthur Autran
Programação não indicada para menores de 18 anos
CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207
próximo ao Metrô Vila Mariana
Outras informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)
Taxa de manutenção: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada)
Atenção: Estudantes do Ensino Fundamental e Médio de Escolas Públicas têm direito à entrada gratuita mediante a apresentação da carteirinha.
PROGRAMAÇÃO
13.11 | SEXTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS
21h00 O “M” DA MINHA MÃO | SANGUE CORSÁRIO | ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA
15.11 | DOMINGO
SALA CINEMATECA PETROBRAS
17h00 O “M” DA MINHA MÃO | SANGUE CORSÁRIO | ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA
27.11 | SEXTA
SALA CINEMATECA PETROBRAS
21h00 LILIAN M: RELATÓRIO CONFIDENCIAL
29.11 | DOMINGO
SALA CINEMATECA PETROBRAS
17h00 LILIAN M: RELATÓRIO CONFIDENCIAL
17h00
FICHAS TÉCNICAS E SINOPSES
Lilian M: relatório confidencial, de Carlos Reichenbach
São Paulo, 1975, 35mm, cor,
Célia Olga Benvenutti, Benjamin Cattan, Sérgio Hingst, Maracy Mello
Maria larga o marido e os filhos para fugir com um caixeiro-viajante, mas uma tragédia obriga-a a ir sozinha para a cidade grande, onde assume o nome de Lilian e torna-se amante do industrial Braga, havendo um envolvimento tríplice, com a participação do filho assexuado do industrial. A ligação tríplice acaba em nova tragédia e Maria passa a ter uma relação sadomasoquista com Hartmann, um homem poderoso, neurótico de guerra. Quando Lilian compra terras de um grileiro, Hartmann descobre, através de um detetive, que a mulher fora enganada no negócio. Separa-se dela, dramaticamente. Novamente sozinha, Lilian, ex-Maria, acaba levada à baixa prostituição pelo marginal Chico’.
sex 27 21h00 | dom 29 17h00
O "m" da minha mão, de Carlos Reichenbach
São Paulo, 1979, 35mm, cor,
Documentário em que a música de Mario Gennari Filho é contraposta a imagens da periferia de São Paulo.
sex 13 21h00 | dom 15 17h00
Orgia, ou o homem que deu cria, de João Silvério Trevisan
São Paulo, 1970, 35mm, pb,
Paulo Rangel, Ozualdo R. Candeias, Fernando Benini, Jean-Claude Bernardet
Alegoria sobre a identidade brasileira que acompanha a perambulação de um grupo de tipos heterodoxos: um camponês que matou o pai, um caminhoneiro, um travesti, um pai-de-santo paraplégico, um intelectual que fala uma língua incompreensível e um cangaceiro ‘grávido’.
sex 13 21h00 | dom 15 17h00
Sangue corsário, de Carlos Reichenbach
São Paulo, 1980, 35mm, cor,
De maneira personalíssima, o diretor presta um tributo ao amigo e poeta Orlando Parolini, morto em 1991. Um dos primeiros filmes brasileiros a refletir sobre os anos da contra-cultura e seus reflexos no comportamento da sua geração.
sex 13 21h00 | dom 15 17h00
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino - 04021-070 - São Paulo
(11) 3512-6111 / contato@cinemateca.org.br